segunda-feira, 6 de junho de 2016

NZINGA, A RAINHA NEGRA QUE COMBATEU OS TRAFICANTES PORTUGUESES

No século XVII, o lucrativo comércio de escravos praticado pelos portugueses sofreu um duro revés. A oposição mais forte que enfrentaram veio da rainha Nzinga, uma obstinada líder política e militar que, por quarenta anos, impediu que os portugueses penetrassem no continente africano. Conheça a história dessa mulher africana extraordinária. 

Seu nome é grafado de diferentes maneiras: Nzinga, Ginga, Jinga, Singa, Zhinga e outros nomes da família linguística Banto (ou Bantu). É também conhecida pelos nomes portugueses de Ana de Souza, rainha Dona Ana e pelas formas híbridas como rainha Ana Nzinga.  

Nzinga Mbandi Ngola Kiluanji, nasceu em 1582, no Ndongo, filha do ngola com uma escrava ambundo. Ainda criança, começou a ser treinada para o combate e o uso de armas. Com oito anos de idade, acompanhou o séquito do pai, em uma batalha, como parte dos exercícios de guerra. Com a morte do pai, em 1617, seu irmão Mbandi tornou-se ngola ascendendo ao trono de Ndongo. 

Por essa época, os portugueses já estavam estabelecidos na ilha de Luanda onde fundaram a vila de São Paulo de Luanda, construíram igreja, casas e fortificações. Enfrentaram a resistência dos chefes angolanos e as doenças tropicais que impuseram pesadas perdas aos portugueses. Calcula-se que, entre 1575 e 1590, dos 1700 europeus falecidos em Angola, só 400 perderam a vida na guerra; os demais, quase 80%, morreram de maleita e outras febres.  

No lugar de prata, escravos  O interesse inicial dos portugueses, em Angola, não era o tráfico de escravos mas as riquezas do país, suas jazidas de prata, cobre e sal. Além disso, o domínio de Angola abriria caminho para chegar, por terra, até as fabulosas minas de Monomotapa (atual Zimbábue). Acreditando que Angola seria um novo Peru, o rei de Portugal e Espanha (era o início da União Ibérica) enviou soldados, armas e canhões para derrotar os angolanos. 

Foram 24 anos de combates até os portugueses finalmente atingirem, em 1603, às supostas minas de prata de Cambambe, ao sul de Luanda. Mas o contentamento durou pouco: as amostras colhidas revelaram-se de chumbo. Não havia prata em Cambambe. Decepcionado, o rei Felipe III mandou suspender a conquista e limitar-se ao tráfico de escravos. 

O porto de Luanda tornou-se o local de embarque de milhares de escravos. Por volta de 1600, a média anual era de 5.600 escravos provindos de diversas partes da África e embarcados para a América. 

Em Luanda chegavam vinhos portugueses, artigos de ferro e latão, mantas do Alentejo, lãs e linhos de Flandres, contas de vidro de Veneza, algodão e musselina da Índia a ainda produtos brasileiros como a farinha de mandioca. Como moeda usam-se os panos fabricados no Congo que recebiam um carimbo com o emblema real e eram usados para a aquisição de escravos. Conforme relata Costa e Silva, esses tecidos, em geral, não eram usados como roupas; passavam de mão em mão até se desgastarem e puírem, perdendo progressivamente parte de seu valor.  

O comércio de escravos 

Os portugueses tinham pouco controle sobre a captura de escravos. A apreensão e o comércio em território de Angola eram fortemente centralizados pelo ngola Mbandi, o rei ambundo, irmão de Nzinga. Ele cobrava dos portugueses tributos e taxas e proibia-lhes o acesso ao interior do reino e a compra direta de escravos. 

As vendas de escravos eram fiscalizadas e só podiam ser feitas por lote, não permitindo ao traficante escolher as “peças” que lhe interessavam. O ngola mandava incluir, no lote, negros idosos, doentes ou com defeitos físicos de difícil colocação no mercado escravo de Luanda. Os que desrespeitavam as regras e os costumes locais eram punidos com o confisco da mercadoria, prisão, expulsão, açoites e até morte. 

As restrições ao livre trânsito dos mercadores e as sanções aplicadas pelo ngola aos infratores causaram indignação entre os portugueses de Luanda. Afinal, para eles, aquelas terras eram de Portugal. As tensões levaram a uma nova guerra contra o ngola Mbandi que, como ocorrera outras vezes, ficou inconclusa. 

Entra em cena a princesa Nzinga 

Nzinga sentou-se sobre sua acompanhante colocando-se em posição de igualdade
com o governador português. Manuscrito de Cavazzi, missionário capuchinho, 1687



Em 1621, chegou a Luanda o novo governador português que se apressou a buscar a paz com o ngola Mbandi. Para negociá-la, o rei ambundo enviou a Luanda uma embaixadora – sua irmã Nzinga, então com 39 anos de idade.

Neste encontro, ocorreu um episódio curioso que revela a altivez da princesa ambundu. Como o governador a recebeu sentado e não lhe ofereceu cadeira, Nzinga fez um sinal para uma de suas acompanhantes que se colocou de quatro no chão para a princesa sentar-se sobre ela. Ao sair, deixou a moça na sala, na mesma posição, como se fosse um banco. O governador avisou-a para levar a moça e Nzinga respondeu-lhe que não sentaria novamente naquele banco pois tinha muitos outros e não o queria mais.

A princesa, inteligente e decidida, deixou claro que o rei ambundo não era e nem seria vassalo do rei ibérico. Estava ali como representante de um estado soberano e exigia tratamento de igual para igual. Para surpresa de todos, Nzinga falou em português fluente. Possivelmente aprendera a língua com alguns dos mercadores e missionários portugueses que haviam frequentado a corte de seu pai. 



Nzinga exigiu que os portugueses abandonassem suas instalações no continente, que entregassem os chefes africanos prisioneiros e ainda um lote de armas de fogo. Em sinal de sua intenção de celebrar o acordo de paz, Nzinga aceitou o batismo católico sob o nome português Ana de Souza. A conversão foi um jogo político do qual ela vai se valer em outros momentos para ganhar confiança e confundir os portugueses.

A rainha Nzinga 


Vários meses se passaram desde o encontro em Luanda sem que os portugueses cumprissem sua parte no acordo. Não estavam dispostos a ceder em nada. Nzinga vai cobrar, pelas armas, o que fora prometido mas, dessa vez, como ngola, rainha de Ndongo.  

A ascensão de Nzinga ao trono, em 1623, é rodeada de mistérios. Alguns estudiosos afirmam que ela envenenou o irmão, outros dizem que o rei se suicidou por decisão dos grandes chefes. Há ainda a versão de que Nzinga, com a morte do irmão tornou-se regente do garoto escolhido como novo ngola, mas a criança pouco depois, morreu afogada no rio Cuanza. 


Começava a nascer uma “mitologia Nzinga”. Rainha enigmática, cujo nome causava terror entre os portugueses, ela deu origem a lendas e relatos contraditórios a seu respeito.

Nzinga e seu séquito. Manuscrito de Cavazzi,
missionário capuchinho, 1687.


 
Desconhece-se sua imagem, não existem retratos da rainha elaborados no seu período de vida. Uma imagem de 1769, para a obra Zingha, reine d’Angola, de Jean-Louis Castilhon, mostra a rainha de perfil com um olhar recatado que nada corresponde ao perfil guerreiro dessa líder política africana. Usa coroa, colar, bracelete, broche e manta típicos da cultura europeia. O toque exótico e sensual fica por conta do seio à mostra, como era comum nas representações de africanas pelo traço europeu cristão.  A imagem aproxima-se da descrição de Glasgow:

 Vaidosa quanto às roupas e aparência, trazia na cabeça a coroa real, com joias de prata, pérolas e cobre  a lhe adornarem os braços e as pernas. Lindos tecidos e roupas eram sua paixão especial e não perdia nenhuma oportunidade de adquirir novas roupas em estilo europeu dos mercadores portugueses. Às vezes ela trocava de traje várias vezes por dia, variando das modas africanas para as portuguesas e vice-versa, até no estilo do penteado. (…) Quando Nzinga recebia hóspedes estrangeiros, tanto ela quanto sua corte se adornavam com dispendiosos trajes e joias europeias e havia farto  uso de baixelas de prata, cadeiras e tapetes. Saudava os hóspedes com o selo real de prata na mão e a coroa na cabeça, ocasionalmente até três vezes por semana. (Glasgow, p. 95-96)

 Costa e Silva apresenta outra descrição de Nzinga:  



“Ela recusava o título de rainha e fazia questão de ser chamada rei. Por isso que decidiu tornar-se socialmente homem e ter um harém, com os concubinos vestidos de mulher. Por isso que lutava como um soldado, à frente do exército. Na realidade, Jinga estava a criar a sua tradição, a sua legitimidade, os precedentes que permitiriam a suas netas e bisnetas ascenderem, sem contestação do sexo, ao poder.” (Costa e Silva, p.438)
Nzinga usando elementos da cultura europeia e
africana em uma gravura do século XVIII.


 

 Em obra recente, Nzingha: warrior queen of Matamba, de Patricia McKissack, publicado em 2000, o conceituado ilustrador Tim O’Brien, criou uma nova imagem da rainha ambundo dando-lhe uma fisionomia bantu juvenil. Ela usa bracelete e colar típicos da realeza bantu, um cordão de zimbos ou búzios, uma concha utilizada como moeda nos reinos do Congo, Ndongo e em sociedades tradicionais de Angola. O vestido colante com grafismos em zig-zag, motivo recorrente na cultura material da África subsaariana, e o arco e flechas compõem o retrato guerreiro e africano de Nzinga.


 O filme Njinga, rainha de Angola, de 2012 (mostrado no Brasil em 2014) construiu outra imagem da rainha. Para representa-la, foi escolhida 
Nzinga com uma fisionomia bantu juvenil,
segundo representação feita por Tim O’Brien, em 2000.


 
Lesliana Pereira, miss Angola 2008. A beleza da atriz reforçada por trajes sensuais em cenas de combate aproxima a rainha à imagem de uma super-heroína africana. 

Nzinga reinou absoluta durante quarenta anos sobre Ndongo (1623 a 1663) e, a partir de 1630, também sobre Matamba. Para enfrentar os portugueses, aliou-se aos ferozes jagas e desposou um chefe deles. 

Veja o trailer do filme Njinga, rainha de Angola, direção de Sérgio Graciano, 2012


Vocabulário 
Ambundo ou Mbundu: maior grupo étnico de Angola, falante do quimbundo, língua que muito contribuiu na formação do léxico do português falado no Brasil. 
Ndongo ou Dongo: reino ambundo da Angola pré-colonial, limitado ao norte pelo Reino do Congo, a leste por Matamba, a oeste pelo Oceano Atlântico e ao sul pelos Estados ovimbundos. 
Ngola ou angola: importante título nobiliárquico e guerreiro dos ambundos na Angola pré-colonial, equivalente a rei. O termo acabou batizando o nome atual do país.

 FONTE:http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/nzinga-a-rainha-negra-contra-os-traficantes-portugueses/

 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Evolução Histórica - CULTURA AFRO-BRASILEIRA

Denomina-se cultura afro-brasileira o conjunto de manifestações culturais do Brasil que sofreram algum grau de influência da cultura africana desde os tempos do Brasil colônia até a atualidade. A cultura da África chegou ao Brasil, em sua maior parte, trazida pelos escravos negros na época do tráfico transatlântico de escravos. No Brasil a cultura africana sofreu também a influência das culturas europeia (principalmente portuguesa) e indígena, de forma que características de origem africana na cultura brasileira encontram-se em geral mescladas a outras referências culturais. Traços fortes da cultura africana podem ser encontrados hoje em variados aspectos da cultura brasileira, como a música popular, a religião, a culinária, o folclore e as festividades populares. Os estados do Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul foram os mais influenciados pela cultura de origem africana, tanto pela quantidade de escravos recebidos durante a época do tráfico como pela migração interna dos escravos após o fim do ciclo da cana-de-açúcar na região Nordeste. Ainda que tradicionalmente desvalorizados na época colonial e no século XIX, os aspectos da cultura brasileira de origem africana passaram por um processo de revalorização a partir do século XX que continua até os dias de hoje.

Evolução histórica
Escravos africanos no Brasil, oriundos de várias nações (Rugendas, c. 1830).

De maneira geral, tanto na época colonial como durante o século XIX a matriz cultural de origem europeia foi a mais valorizada no Brasil, enquanto que as manifestações culturais afro-brasileiras foram muitas vezes desprezadas, desestimuladas e até proibidas. Assim, as religiões afro-brasileiras e a arte marcial da capoeira foram frequentemente perseguidas pelas autoridades. Por outro lado, algumas manifestações de origem folclórico, como as congadas, assim como expressões musicais como o lundu, foram toleradas e até estimuladas.
Entretanto, a partir de meados do século XX, as expressões culturais afro-brasileiras começaram a ser gradualmente mais aceitas e admiradas pelas elites brasileiras como expressões artísticas genuinamente nacionais. Nem todas as manifestações culturais foram aceitas ao mesmo tempo. O samba foi uma das primeiras expressões da cultura afro-brasileira a ser admirada quando ocupou posição de destaque na música popular, no início do século XX.
Posteriormente, o governo da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas desenvolveu políticas de incentivo do nacionalismo nas quais a cultura afro-brasileira encontrou caminhos de aceitação oficial. Por exemplo, os desfiles de escolas de samba ganharam nesta época aprovação governamental através da União Geral das Escolas de Samba do Brasil, fundada em 1934.
Outras expressões culturais seguiram o mesmo caminho. A capoeira, que era considerada própria de bandidos e marginais, foi apresentada, em 1953, por mestre Bimba ao presidente Vargas, que então a chamou de "único esporte verdadeiramente nacional".
A partir da década de 1950 as perseguições às religiões afro-brasileiras diminuíram e a Umbanda passou a ser seguida por parte da classe média carioca[1]. Na década seguinte, as religiões afro-brasileiras passaram a ser celebradas pela elite intelectual branca.
Em 2003, foi promulgada a lei nº 10.639 que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), passando-se a exigir que as escolas brasileiras de ensino fundamental e médio incluam no currículo o ensino da história e cultura afro-brasileira.

Estudos afro-brasileiros
Bloco afro Ilê Aiyê na Bahia


O interesse pela cultura afro-brasileira manifesta-se pelos muitos estudos nos campos da sociologia, antropologia, etnologia, música e linguística, entre outros, centrados na expressão e evolução histórica da cultura afro-brasileira
Muitos estudiosos brasileiros como o advogado Edison Carneiro, o médico legista Nina Rodrigues, o escritor Jorge Amado, o poeta e escritor mineiro Antonio Olinto, o escritor e jornalista João Ubaldo, o antropólogo e museólogo Raul Lody, entre outros, além de estrangeiros como o sociólogo francês Roger Bastide, o fotografo Pierre Verger, a pesquisadora etnóloga estadunidense Ruth Landes, o pintor argentino Carybé, dedicaram-se ao levantamento de dados sobre a cultura afro-brasileira, a qual ainda não tinha sido estudada em detalhe
Alguns infiltraram-se nas religiões afro-brasileiras, como é o caso de João do Rio, com esse propósito; outros foram convidados a fazer parte do Candomblé como membros efetivos, recebendo cargos honorificos como Obá de Xangô no Ilê Axé Opô Afonjá e Ogan na Casa Branca do Engenho Velho, Terreiro do Gantois, e ajudavam financeiramente a manter esses Terreiros.
Muitos sacerdotes leigos em literatura se dispuseram a escrever a história das religiões afro-brasileiras, recebendo a ajuda de acadêmicos simpatizantes ou membros dos candomblés. Outros, por já possuírem formação acadêmica, tornaram-se escritores paralelamente à função de sacerdote, como é caso dos antropólogos Júlio Santana Braga e Vivaldo da Costa Lima, as Iyalorixás Mãe Stella e Giselle Cossard, também conhecida como Omindarewa a francesa, o professor Agenor Miranda, a advogada Cléo Martins e o professor de sociologia Reginaldo Prandi, entre outros.
Os negros trazidos da África como escravos geralmente eram imediatamente batizados e obrigados a seguir o Catolicismo. A conversão era apenas superficial e as religiões de origem africana conseguiram permanecer através de prática secreta ou o sincretismo com o catolicismo.
Algumas religiões afro-brasileiras ainda mantém quase que totalmente suas raízes africanas, como é o caso das casas tradicionais de Candomblé e do Xangô do Nordeste; outras formaram-se através do sincretismo religioso, como o Batuque, o Xambá e a Umbanda. Em maior ou menor grau, as religiões afro-brasileiras mostram influências do Catolicismo e da encataria europeia, assim como da pajelança ameríndia[4]. O sincretismo manifesta-se igualmente na tradição do batismo dos filhos e o casamento na Igreja Católica, mesmo quando os fiéis seguem abertamente uma religião afro-brasileira.
Já no Brasil colonial os negros e mulatos, escravos ou forros, muitas vezes associavam-se em irmandades religiosas católicas. A Irmandade da Boa Morte e a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foram das mais importantes, servindo também como ligação entre o catolicismo e as religiões afro-brasileiras. A própria prática do catolicismo tradicional sofreu influência africana no culto de santos de origem africana como São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia e Santo Antônio de Noto (Santo Antônio de Categeró ou Santo Antônio Etíope); no culto preferencial de santos facilmente associados com os orixás africanos como São Cosme e Damião (ibejis), São Jorge (Ogum no Rio de Janeiro), Santa Bárbara (Iansã); na criação de novos santos populares como a Escrava Anastácia; e em ladainhas, rezas (como a Trezena de Santo Antônio) e festas religiosas (como a Lavagem do Bonfim onde as escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim em Salvador, Bahia são lavadas com água de cheiro pelas filhas-de-santo do candomblé).
As igrejas pentencostais do Brasil, que combatem as religiões de origem africana, na realidade têm várias influências destas como se nota em práticas como o batismo do Espírito Santo e crenças como a de incorporação de entidades espirituais (vistas como maléficas). Enquanto o Catolicismo nega a existência de orixás e guias, as igrejas pentencostais acreditam na sua existência, mas como demônios.
Segundo o IBGE, 0,3% dos brasileiros declaram seguir religiões de origem africana, embora um número maior de pessoas sigam essas religiões de forma reservada.
Inicialmente desprezadas, as religiões afro-brasileira foram ou são praticadas abertamente por vários intelectuais e artistas importantes como Jorge Amado, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia (que freqüentavam o terreiro de Mãe Menininha), Gal Costa (que foi iniciada para o Orixá Obaluaye), Mestre Didi (filho da iyalorixá Mãe Senhora), Antonio Risério, Caribé, Fernando Coelho, Gilberto Freyre e José Beniste (que foi iniciado no candomblé ketu).
Filhas-de-santo do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá na Bahia

Religiões afro-brasileiras
  • Babaçuê - Pará
  • Batuque - Rio Grande do Sul
  • Cabula - Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina
  • Candomblé - Em todos estados do Brasil
  • Culto aos Egungun - Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo
  • Culto de Ifá - Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo
  • Macumba - Rio de Janeiro
  • Omoloko - Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo
  • Quimbanda - Rio de Janeiro, São Paulo
  • Tambor-de-Mina - Maranhão
  • Terecô - Maranhão
  • Umbanda - Em todos estados do Brasil
  • Xambá - Alagoas, Pernambuco
  • Xangô do Nordeste - Pernambuco
  • Confraria
  • Irmandade dos homens pretos
  • Sincretismo

Arte
Tecelã do terreiro de Candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, Salvador, Bahia

O Alaká africano, conhecido como pano da costa no Brasil é produzido por tecelãs do terreiro de Candomblé Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, no espaço chamado de Casa do Alaká. Mestre Didi, Alapini (sumo sacerdote) do Culto aos Egungun e Assògbá (supremo sacerdote) do culto de Obaluaiyê e Orixás da terra, é também escultor e seu trabalho é voltado inteiramente para a mitologia e arte yorubana.[6] Na pintura foram muitos os pintores e desenhistas que se dedicaram a mostrar a beleza do Candomblé, Umbanda e Batuque em suas telas. Um exemplo é o escultor e pintor argentino Carybé que dedicou boa parte de sua vida no Brasil esculpindo e pintando os Orixás e festas nos mínimos detalhes, suas esculturas podem ser vistas no Museu Afro-Brasileiro e tem alguns livros publicados do seu trabalho. Na fotografia o francês Pierre Fatumbi Verger, que em 1946 conheceu a Bahia e ficou até o último dia de vida, retratou em preto e branco o povo brasileiro e todas as nuances do Candomblé, não satisfeito só em fotografar passou a fazer parte da religião, tanto no Brasil como na África onde foi iniciado como babalawo, ainda em vida iniciou a Fundação Pierre Verger em Salvador, onde se encontra todo seu acervo fotográfico.

Culinária
A feijoada brasileira, considerada o prato nacional do Brasil, é frequentemente citada como tendo sido criada nas senzalas e ter servido de alimento para os escravos na época colonial. Atualmente, porém, considera-se a feijoada brasileira uma adaptação tropical da feijoada portuguesa que não foi servida normalmente aos escravos. Apesar disso, a cozinha brasileira regional foi muito influenciada pela cozinha africana, mesclada com elementos culinários europeus e indígenas.
A culinária baiana é a que mais demonstra a influência africana nos seus pratos típicos como acarajé, caruru, vatapá e moqueca. Estes pratos são preparados com o azeite-de-dendê, extraído de uma palmeira africana trazida ao Brasil em tempos coloniais. Na Bahia existem duas maneiras de se preparar estes pratos "afros". Numa, mais simples, as comidas não levam muito tempero e são feita nos terreiros de candomblé para serem oferecidas aos orixás. Na outra maneira, empregada fora dos terreiros, as comidas são preparadas com muito tempero e são mais saborosas, sendo vendidas pelas baianas do acarajé e degustadas em restaurantes e residências.

Música e dança
A música criada pelos afro-brasileiros é uma mistura de influências de toda a África subsaariana com elementos da música portuguesa e, em menor grau, ameríndia, que produziu uma grande variedade de estilos.
A música popular brasileira é fortemente influenciada pelos ritmos africanos. As expressões de música afro-brasileira mais conhecidas são o samba, maracatu, ijexá, coco, jongo, carimbó, lambada, maxixe, maculelê
Como aconteceu em toda parte do continente americano onde houve escravos africanos, a música feita pelos afro-descendentes foi inicialmente desprezada e mantida na marginalidade, até que ganhou notoriedade no início do século XX e se tornou a mais popular nos dias atuais.
Instrumentos afro-brasileiros:
  • Afoxé
  • Agogô
  • Atabaque
  • Berimbau
  • Tambor
FONTE:https://www.faecpr.edu.br/site/portal_afro_brasileira/3_III.php

#Os Monstro - DBS Gordão Chefe - Novo Single - Trilha Sonora Marcelo Formiga x DBS e a Quadrilha


quinta-feira, 2 de junho de 2016

FAMÍLIA CORLEONE LANÇA EP “TIME DOS MONSTROS”. OUÇA AQUI!


“Time dos Monstros” é o nome do disco que a Família Corleone do Rio de Janeiro acaba de lançar. Com produção de Devastoprod o trabalho conta com o talento de vários MCs do cenário nacional. Don, Bitrinho, Alfina, Gil Metralha, Cert, Maomé, Coruja BC1, Drik Barbosa e Mr. Catra participaram desse projeto.

O EP é um cartão de visitas da gravadora Corleone Record’s que já trabalha para o lançamento do trabalho solo de cada um dos integrantes:
Don teve o primeiro contato com o rap nos Estados Unidos quando ainda era criança. Cresceu ouvindo Easy E, NWA, Tupac e Biggie. “Em 1992, quando ouvi “The Chronic”, comecei a entender mais sobre o rap, a cultura e o movimento que crescia rapidamente. Hoje, muitos anos após meu primeiro contato com a música do “Bone Thugs n Harmony”, que também é um dos meus ídolos, tive o privilégio de dividir com palco com eles.”, comenta o rapper que também é presidente da gravadora.


Mc Alfina é um rapper da Zona Norte, Rio de Janeiro, representante da comunidade 5 Bocas de Brás de Pina. Iniciou sua carreira no rap com o grupo Tiro Verbal e foi apresentador do programa Poesia Ritmada Radio Gruta durante 3 anos.

DJ COALA é compositor, DJ e produtor musical. O artista vem se destacando pela originalidade de suas produções, onde o rap, reggae, dancehall e EDM são suas principais influências.

DJ COALA faz parte do coletivo Cidade Verde Sounds (Paraná), e já gravou diversos artistas do cenário rap nacional, como Oriente, Gil Metralha, MC Alfina, Família Corleone, Adonai, Jimmy Luv, Família IML e Monkey Jhayam.


CLIQUE AQUI PARA BAIXAR EM MP3


FONTE:http://www.rapnacional.com.br/familia-corleone-lanca-ep-time-dos-monstros-ouca-aqui/

CACIFE CLANDESTINO LANÇA NOVO ÁLBUM “CONTEÚDO EXPLÍCITO PT.1”


O novo álbum do grupo Cacife Clandestino chega com 15 faixas e várias participações especiais, entre elas Oriente, ConeCrewDiretoria, Reis do Nada e Luccas Carlos.
Conteúdo Explícito retrata histórias de apostadores das esquinas querendo ganhar a vida nas ruas.


Onde os nomes nas paredes, o barulho da viatura, a fome, a ganância e a ambição do homem, se misturam em meio a um mundo caótico.


“A rua é a lei do cão. A vida é louca. Só conquista quem se atreve. Mas quanto vale sua liberdade?”, quer a resposta? Aperte o play abaixo e ouça Conteúdo Explícito – Part 1.

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR O DISCO EM MP3


FONTE:http://www.rapnacional.com.br/cacife-clandestino-lanca-novo-album-conteudo-explicito-pt-1/

O SOM DO TEMPO: DOCUMENTÁRIO RETRATA EXPANSÃO DO RAP CARIOCA


Nem só de Praia, samba e futebol vive o Rio. O Som do Tempo é um longa-metragem que aborda a formação e desenvolvimento da cena do Rap no Rio de Janeiro. O filme conta com 18 anos de história de imagens e depoimentos. Ao longo de 7 anos de produção foram filmados mais de 70 pessoas que constroem a cena do rap, de diversas regiões do grande Rio, somando dezenas de horas de filmagens.

O crescimento do rap, as rodas de rima, o cinema e os clipes, a questão de gênero, o negro, a história do movimento, os beat makers e produtores, os grupos e MC´s formam a narrativa do filme: uma verdadeira aula da formação e desenvolvimento da cena do rap no Rio de Janeiro oferecida por aqueles que lutaram e seguem lutando para construí-la. O filme começou a ser produzido em 2009 tendo seu término em 2016. Foi também em 2009 o ano de lançamento do documentário “De Repente: poetas de rua” (2004 – 2009) de Arthur Moura que aborda a cena do rap carioca no seu início no bairro da Lapa. O Som do Tempo vai mais fundo no caminho iniciado pelo Poetas de Rua e faz uma grande obra remontando o desenvolvimento da cena do rap historicamente e tentando entender a cena através dos múltiplos braços e pernas que constroem esse movimento. Influenciada e em constante troca com os cenários do Rap dos EUA, de São Paulo, do Brasil e do mundo, a cena do rap do Rio de Janeiro vai trilhando seu caminho de forma autentica.

Para o documentário, mais de 70 entrevistas foram realizadas, entre elas:

Marcelo D2; MV Hemp; Dropê; Lola Sales; Cavi Borges; PH Stelzer; Rabu Gonzales; Ton Gadioli; DJ Castro; DJ Erik Scratch; DJ Machintal; Gerard Miranda;3030; Antiéticos; Bacon; De Leve; Dom Negrone; Funkero; Gaspa; Iky Castilho; Lepô; Mahal; Marcão Baixada; Mateus Pinguim (DubAtack); Maurício (Carta na Manga); Nissin (Oriente); OZ; Ozama; Ramiro Mart; Ramonzin; Filipe Ret; Rico; Shackal; Start; Wallace Carvalho; Aline Pereira; Babi;Negra Rê; Rossi;Bebel du Gueto; Gori Beatzz; Maolee; Papatinho; 2F (U-Flow); Bruno Tomba;DuBrown; Damien Seth; Harlem; Djoser; Fábio Broa (Roda do Meier); Gordo (Batalha do Tanque); Roda de Vila Isabel – Dropê ODC; Thiago Pombal; Jonathan e Sardinha (Roda da Vila Isabel); NJ Sallez; Aori; DG dos Santos, Gel, Lexo, BZ Moraes Santos (Roda de Icaraí – Niterói) ; Mafia 44; Shawlin; Elza Coen; Slow da BF; Nectar Gang; Akira Presidente.


FONTE:http://www.rapnacional.com.br/o-som-do-tempo-documentario-retrata-expansao-do-rap-carioca/

FUNKERO LANÇA “ESPIRITO VÂNDALO” COM FILIPE RET E DON L


Após lançar a faixa título do aguardado álbum Psycho, Funkero chega pesado com a faixa “Espirito Vândalo”, que conta com participações especiais de Filipe RET e Don L.

A música é uma pancada que mescla o estilo dos três rappers em uma única track em cima da batida de HZD. Segundo o refrão a obediência é suicídio e é por isso que os manos seguem na contra-mão com mensagens de revolta contra as leis impostas pela sociedade, mas que não algema esses manos de “Espirito Vândalo”.

Aperte o play, aumenta o volume e compartilhe!


FONTE:http://www.rapnacional.com.br/funkero-lanca-espirito-vandalo-com-filipe-ret-e-don-l/

Mussoumano - Ela Faz Minha Barraca Armar (Lyric Video)




Participar da política ou não?

Marcelo Silles
Assistente Social

A maioria das pessoas não quer participar da política. Mas uma grande maioria quer gozar dos ônus e benefícios públicos que a mesma proporciona. Eis que surge a incógnita: seria justo quem não luta e não sua a camisa, ter os mesmos tratamentos benéficos daqueles que vigoram na linha de frente?

Um grande número de pessoas que se consideram cidadãos, reclamam dos políticos, dizem que política não presta, não vale nada que é tudo farinha do mesmo saco. Mas a verdade que deve ser dita é: eu fui em fulano pedir uma ajuda e fulano me negou. Portanto, todos querem ganhar algo, não estão interessados no bem comum.

Desfrutam de conquistas que sequer ajudaram a conquistar. Querem exigir, mas sequer tiraram suas nádegas do sofá, saíram da cama, de seus confortos de sábados e domingos para fortalecer numa campanha de reajustes de melhores salários, por uma saúde melhor, por uma educação melhor, numa reunião de Associação de Bairro, procurar identificar realmente quem está comprometido com a coisa pública, com o bem público, em prol do bem comum, nunca procuraram participar de nada, sempre viveram a favor de ajudas, pedidos.

Nunca passou pela mente saber como realmente funciona, o sistema, o esquema, procurar saber pelo menos o básico. Na minha humilde opinião, essas pessoas que são contra a política e nojo de políticos, não contribuem absolutamente em nada para o crescimento da nação, não participam de nada, sanguessugas, verdadeiros pairas, procuram sempre desfrutar daquilo que nunca se deram ao trabalho, à custa da luta de outros.

Dizem, político é isso, político é aquilo. Ficar em esquina cochichando, criticando e não fazer nada, não ajuda em nada. Ficar na casa da vizinha, no portão, na calçada, criticando, cochichando e não fazer nada, não ajuda em nada. As pessoas não declinam, não se valorizam, querem tudo na mão. Se fulano ajuda, fulano me ajuda, fulano é bão. Se fulano não me ajuda, fulano é ruim. A pessoa pensa nela, somente nela. Em vez de pensar nela e no coletivo, não, quer somente para ela e que se dane o outro, mas o fulano que a ajudou é bão.

Mas o engraçado é que essas pessoas odeiam política e odeiam os políticos. Mas nessa época são os primeiros a pedirem ou a dizerem “só voto em candidato se o candidato me der algo”. O problema não é se favorecer, mas o se favorecer e não pensar no coletivo é o que essas pessoas não fazem. Não tem espírito comunitário, participativo, de colaboração, de doação. Tudo bem querer algo em troca, faz parte da natureza. Mas em colaborar com algo, sentir-se parte de algo, participar, isso nem pensar, cansa muito. Sem esse pensamento continuam idênticas aos mesmos aos quais criticam.

E a incógnita continua no ar: seria justo quem não luta e não sua a camisa, ter os mesmos tratamentos benéficos daqueles que vigoram na linha de frente?

Deixo contigo, análise, colaboração e a resposta.

terça-feira, 31 de maio de 2016

UMA BRANCA BONJESUESE: EU ACHO FALAR PRETO TÃO FEIO.

Marcelo Silles
Assistente Social

Em uma determinada ocasião, em um determinado dia, uma sicrana branca dirigiu-se a mim e disse: eu acho falar preto tão feio. E a minha resposta foi óbvia: sou preto, a cor mais linda que Deus criou na face da terra. Feio é falar branco.

É em uma dessas invertidas que eu fico abismado em afirmar o quão sublime é a ignorância humana, precisamente dos clareados. Nossos ancestrais foram forçados a esquecerem seus nomes, suas identidades, suas origens para adotarem costumes, modos, culturas e nomes brancos. E existem criaturas que tem a petulância de dizerem que, quem foge o padrão e tem a audácia em se  afirmar preto é feio. Como de costume querem que nós continuemos a sermos os dóceis, servis, bonzinhos, os neguinhos e neguinhas de sorrisos alegres em meio ao caos que nos é imposto cotidianamente.

Reflita e aceite a auto-afirmação do Devir Negro Afro-Diásporo em suas vidas. Querem que esqueçamos, mas eles não esquecem dos seus como sempre. É o mesmo mimimimimi, o mesmo chororô de sempre, que segundo eles, imposições deles, temos que ser morenos, mulatos, negros e pretos não, tem que ser moreninho. Como é lindo e poético desfilar com uma blusa com os dizeres 100% NEGRO ou 100% PRETO. Pô agora imagina uma criatura com uma blusa escrita 100% BRANCO, aí sim fica muito feio, sem poesia, sem glamour, sem amor.


E a sicrana branca ficou de cara feia com a minha resposta ainda. Eu mereço. E vamos que a luta não, continua e pelo visto será eterna. 4P sempre.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Rimas & Melodias - Da Lama


Rimas & Melodias - Asas



Rimas & Melodias - Remember the Time


Rimas & Melodias - Cypher


quinta-feira, 19 de maio de 2016

CENTRO - DJ JACK - DIMAS - BODAUM - LEACIM SAID - LOKI - ADIKTO - FEIJÓ - SONIQ

Adikto - X Barras (Clipe Oficial) prod. WC Beats

Iorubá, Fon e Kimbundu: Lorenzo Turner Registrou os Terreiros Baianos em 1940

Família de santo retratada em 1940. Foto: Anacostia Museum, Smithsonian Institution, Washington, USA

No dia 14 de junho, uma menina de 11 anos tomou uma pedrada na cabeça depois de sair de um terreiro no Rio de Janeiro. Diante de gritos como "Jesus está voltando" e outras ofensas religiosas, os dois agressores erguiam suas Bíblias e bradavam em nome de Deus. O caso, registrado na delegacia como preconceito de raça, cor, etnia ou religião, ganhou os maiores portais do país e estampa, em cores desonestas, mais um triste caso de intolerância religiosa. Além de ignorantes, esses dois homens reproduzem o discurso de ódio propagado por evangélicos famosos, mas essa pedra, muito dolorida para a jovem atacada, foi arremessada também na história do país. As religiões afro-brasileiras são algumas de nossas mais fortes heranças.
Em busca desse rastro quase apagado da memória brasileira, o etnomusicólogo francês Xavier Vatin, cria de Pierre Verger, anda descobrindo altos ouros da história do negro no Brasil, principalmente na Bahia da década de 1940. Em seu pós-doutorado, ele encontrou, meio sem querer, parte significativa do acervo do linguista norte-americano Lorenzo Turner na Universidade de Indiana. São centenas de fotos e 52 horas de áudio da passagem do pesquisador pelo Brasil entre 1940 e 1941. Na ocasião, ele pesquisava as línguas de matrizes africanas faladas por aqui, principalmente nos terreiros. "O diretor dos arquivos da universidade me falou do Turner, de que, apesar de muitos anos de pesquisa, eu nunca tinha ouvido falar. A primeira coisa que eu ouvi foi 'Menininha cantando'", ele conta, emocionado.
Em quase um ano no país, Turner, que é o primeiro linguista a ter o diploma da Universidade de Harvard, visitou Sergipe, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia, onde ficou por sete meses. "Esse trabalho é importante para mostrar mais uma vez para a sociedade brasileira que o que atrai pesquisadores do mundo inteiro há mais de um século para o Brasil é a cultura negra. Então, como estamos num contexto de discriminação e racismo ligado à intolerância religiosa e num período em que o candomblé ainda sofre tanto preconceito, é importante mostrar o quanto essa cultura negra, por mais que às vezes seja estigmatizada aqui no Brasil, ela é valorizada no exterior", explica Vatin.
Outro retrato feito por Lorenzo Turner em sua passagem pelo Brasil. Foto: Anacostia Museum, Smithsonian Institution, Washington, USA
Neto de escravos na Carolina do Norte, o linguista registrou grandes pérolas do Brasil dos anos 1940. Na Bahia, as 17 horas de gravação incluem cantos, rezas e ritos fúnebres de grandes nomes do candomblé, como Manoel Falefá,Martiniano Eliseu do BonfimJoãozinho da Gomeia e Mãe Menininha do Gantois. "O resgate de um patrimônio litúrgico de cantigas, rezas, ritos e histórias contadas. De lá pra cá, infelizmente tem cantigas e rezas que se perderam; dentro desse patrimônio, tem coisas que não existem mais hoje", conta Vatin, que tem planos de passar esses registros musicais aos terreiros para devolvê-los à memória deles. Há ainda o registro da voz do Mestre Bimba, fundador da capoeira regional, e um áudio raro da voz do escritor Mário de Andrade. No material, rico em anotações linguísticas, foram encontrados principalmente os idiomas Iorubá, Fon, Kimbundu e Kibongo, além de registros da capoeira e de músicas de carnaval.
Mãe Menininha (em destaque) com suas filhas de santo em frente ao terreiro de Gantois. Foto: Anacostia Museum, Smithsonian Institution, Washington, USA
Turner foi, pelos registros, o único pesquisador a visitar municípios como Cachoeira, no Recôncavo Baiano. "Descobri incrivelmente, quando eu voltei de Bloomington, que a minha vizinha, uma senhora de 87 anos, é viúva de um pai de santo que ele gravou." O linguista se entrosou com as pessoas de santo: assim, na busca pelo conteúdo linguístico africano, levou o Gantois a um estúdio de gravação e gravou, entre outras coisas, esse ouro que exibimos aqui na VICE. O canto para Oxóssi é interpretado por Mãe Menininha.
O resultado deste trabalho será uma exposição de fotografias no Museu Afro Brasil, em São Paulo, prevista para agosto. Além disso, preparam-se um CD duplo, com lançamento agendado para o final do ano, e um livro, publicado inicialmente nos EUA - e em inglês -, no ano que vem.
Retrato do linguista Lorenzo Turner em 1929. Foto: Anacostia Museum, Smithsonian Institution, Washington, USA

FONTE:http://www.vice.com/pt_br/read/lorenzo-turner-terreiros-brasileiros-em-1940