quinta-feira, 14 de julho de 2016

BOCA DE FAVELA: NOTA

NOTA: a página Boca de Favela lamenta a morte do jovem Jonatha Dalber, de 16 anos, assassinado nesta quinta-feira, 30 de Junho, no Morro do Borel.

Por Claudia Ferreira, Eduardo de Jesus, Amarildo de Souza, Roberto de Souza, Carlos Eduardo, Cleiton Corrêa de Souza, Wesley Castro, Wilton Esteves Domingos Junior, e por todas as pessoas que perdem o direito à vida diariamente nas favelas, não poderíamos deixar de nos posicionar.

Prestes a sediar os Jogos Olímpicos Rio2016, o sentimento que permeia os moradores das favelas cariocas pode ser traduzido pelas vozes de Cidinho e Doca: "eu só quero entrar na minha casa seu moço, ter o direito de ir e vir."

Cidade Olímpica pra quem?
‪#‎AFavelaÉCidade ‪#‎QueremosViver#‎JovemNegroVivo‬ ‪#‎Rio2016 #‎WelcomeToHell‬‪#‎RiodeJaneiro #‎Brazil‬


Antes de entrar na Uerj, aluna negra ouviu que não tinha 'cara de médica'


  • "Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que 
  • virava e falava: 'ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'", diz a estudante Mirna Moreira
O relato de uma jovem negra estudante de medicina na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) viralizou nas redes sociais, no último fim de semana, ao expor as condições sociais da jovem em contraste com o ambiente acadêmico.
No texto, a estudante Mirna Moreira, 22, falou também do preconceito enfrentado antes de ela entrar na universidade, onde cursa o segundo ano após ingressar pelo sistema de cotas. "Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: 'ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'", escreveu.
Moradora do Complexo do Lins, na zona norte do Rio, Mirna definiu que seu "maior acerto" foi ter assumido a estética de mulher negra, nos cabelos soltos. "Antes de entrar nesse espaço da universidade, eu entendi que é muito importante estar ali porque existe a questão da representatividade, que se estende para fora da academia também. Quando eu visto meu jaleco branco e subo o Morro dos Macacos representando a instituição Uerj, como fiz em uma ação sobre sexualidade na adolescência numa escola pública, e as meninas negras dessa escola pedem para tirar fotos comigo, elogiam meu cabelo crespo, e de alguma forma me veem como referência, eu só tenho mais certeza disso", definiu.
"Por isso, principalmente nos espaços acadêmicos, eu faço questão de afirmar que sou do Complexo do Lins. Esse lugar faz parte da minha identidade. Sei da onde eu vim, quem me ajudou a chegar até aqui, e não foi nenhum médico de formação, foi minha mãe que trabalhou como diarista por muitos anos, meu pai que já trabalhou como pedreiro, e que sempre priorizaram meus estudos. Eu sei quem são os pretos que construíram a base para que hoje eu esteja aqui hoje", escreveu.

Jovem quer "devolver à sociedade" como médica do SUS

Em entrevista ao UOL, a jovem contou que já passou por situações nas quais ela vê um viés racista -- como a "surpresa" de alguns colegas quando, ano passado, ainda no primeiro bimestre de aulas, ela gabaritou em uma prova de anatomia prática.
"Apenas duas alunas gabaritaram: eu e uma colega, branca. Houve uma surpresa muito grande da sala somente em relação a mim, e com perguntas do tipo: 'Você escondeu o jogo?', já que era o primeiro mês, ainda, de aula. Mas a outra aluna passou pelo mesmo processo de seleção e não houve esse tipo de questionamento; não tenho dúvida de que foi racismo", atestou.
Mirna fez o ensino fundamental em escola pública, mas seguiu os estudos em escola particular graças à ajuda da madrinha, que vive nos Estados Unidos. "Já questionaram minha cota, já alegaram que eu tenho um tablet... como se eu não tivesse o direito de ter, me esforçando para isso".
A jovem milita na causa negra também em um coletivo da universidade. É ali o espaço, ela aponta, onde vários outros relatos semelhantes ao que ela diz ter ouvido são apresentados, mas de outros cursos. "Isso de 'não ter cara' de uma profissão' é quase unânime entre os negros da faculdade que estão nos cursos tradicionais".
Para o futuro, a aluna de medicina quer "devolver à sociedade" o que ela chama de investimento -- seja por projetos sociais ou pelo trabalho no SUS (Sistema Único de Saúde). "Eu tenho noção de que o meu estudo sai do bolso da sociedade", justificou.
Hoje, a mãe de Mirna é telefonista, e o pai, bombeiro. A filha integra um grupo de dez negros em uma sala de 104 alunos na medicina. 

Mais jovens negros nas universidades

Dados da SIS 2015 (Síntese de Indicadores Sociais), pesquisa produzida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divulgada em dezembro passado, mostraram que, em uma década, foi constatado crescimento na proporção de universitários na faixa etária de 18 a 24 anos --de 32,9%, em 2004, para 58,5%, em 2014--, com destaque para o recorte por cor ou raça, de acordo com os critérios de classificação do instituto.
Do total de estudantes pretos ou pardos de 18 a 24 anos, 45,5% estavam na universidade no ano passado. Há dez anos, essa proporção era de 16,7%. Entre os brancos, também houve aumento --de 47,2%, em 2004, para 71,4%, em 2014.
Também ano passado, outro estudo do IBGE revelou que os negros representavam apenas 17,4% da parcela mais rica do país, em 2014 – apesar de a população que se identifica como preta ou parda ter crescido entre a parcela 1% mais rica da população brasileira, cuja renda média é de R$ 11,6 mil por habitante.
Segundo o IBGE, os negros (pretos e pardos) eram a maioria da população brasileira em 2014, representando 53,6% da população. Os brasileiros que se declaravam brancos eram 45,5%.
FONTE:http://educacao.uol.com.br/noticias/2016/07/11/antes-de-entrar-na-uerj-aluna-negra-ouviu-que-nao-tinha-cara-de-medica.htm

1976 - MOVIMENTO BLACK RIO 40 ANOS


Exposição em grande festa resgata o importante movimento social e musical que teve seu auge no Rio de Janeiro nos anos 1970.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

POLICENO, MÚSICA PERDÃO


Policeno 
MÚSICA: ‪#‎PERDÃO‬ 
(VEJA EM HD)
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TRECHO DO FILME DO MALCOLM X! IMPORTANTE VER!


Os Negros na Revolução Constitucionalista de 1932 - Uma Reflexão


Dentro do cenário já conhecido da Revolução Constitucionalista de 1932, os negros não aderiram tanto ao movimento, pois muitos eram vanguardistas e operários, classes que davam grande apoio político a Getúlio Vargas, e um dos pontos do movimento era contra este governo.

            A Historiografia Brasileira mais antiga não oferece um respaldo acadêmico sobre os movimentos negros pós abolição, o que tem alterado entre os novos pesquisadores. Dentro desta temática proposta temos alguns pontos que demonstram que mesmo que os negros representaram 1/3 dos soldados paulistas, estes foram muito importante dentro do processo. Vamos focar agora nossa atenção para a chamada Legião Negra, fundada por Joaquim Guaraná de Santana.

            Como se conhece a participação dos negros na República Brasileira foi uma conquista processual, e no contexto da década de 30 temos a Frente Brasileira Negra. Trata-se de um movimento paulista, que defendiam as coisas dos negros em diferentes temáticas, principalmente as sociais e políticas. Porém, como já explicitado, a maioria dos membros da FBN, eram vanguardistas e operários, dando apoio a Getúlio Vargas. O presidente era um grande defensor dos direitos trabalhistas, sendo autor da CLT, por isso o maior movimento não ofereceu apoio a Joaquim Guaraná de Santana, quando este foi solicitar ajuda.

          Joaquim Guaraná de Santana era membro da FBN, porém rompe com esta e funda da Legião Negra, conhecida também como Pérola Negra. Dentro da metodologia de organização de batalhões, os soldados nomeavam seus grupos e a Legião Negra denominou seus grupos com nomes de homens negros e mestiços importantes da História do Brasil, como Zumbi, Antônio Pereira Rebouças e Henrique Dias.

            O movimento Legião Negra se tornou um marco de grande importância para uma profunda reflexão dos negros no processo democrático, alguns jornais da época passaram a relatar fatos ligados ao movimento negro dentro da Revolução Constitucionalista de 1932, sendo o nosso foco o jornal A Gazeta, trazendo dois episódios, sendo o primeiro sobre uma reflexão da Legião Negra e o segundo ponto, de uma mulher negra que se vestiu de homem para participar da luta:

Os patriotas pretos estão se arregimentando - Já seguiram vários batalhões - O entusiasmo na Chácara Carvalho - Exercícios dia e noite - As mulheres de cor dedicam-se à grande causa. [...] Também os negros de todos os Estados, que vivem em São Paulo, quando o clarim vibrou chamando para a defesa da causa sagrada os brasileiros dignos, formaram logo na linha de frente das tropas constitucionalistas. A epopéia gloriosa de Henrique Dias vai ser revivida na luta contra a ditadura. Patriotas, fortes e confiantes na grandeza do ideal por que se batem São Paulo e Mato Grosso, os negros, sob a direção do Dr. Joaquim Guaraná Sant´Anna, tenente Arlindo, do Corpo de Bombeiro, tenente Ivo e outros, uniram-se, formando batalhões que, adestrados no manejo das armas e na disciplina vão levar, nas trincheiras extremas, desprendidos e leais, a sua bravura, conscientes de que se batem pela grandeza do Brasil que seus irmãos de raça, Rebouças, Patrocínio, Gama e outros muitos tanto dignificaram. Os nossos irmãos de cor, cujos ancestrais ajudaram a formar este Brasil grandioso, entrelaçando os pavilhões auri-verde e Paulista, garbosos, ao som dos hinos e marchas militares, seguem cheios de fé, ao nosso lado, ao lado de todos os brasileiros que levantaram alto a bandeira do ideal da constitucionalização, para a cruzada cívica, sagrada, da união de todos os Estados sob o lábaro sacrossanto da pátria estremecida. ( Jornal A Gazeta, 23 de Julho de 1932 – Os Homens de Cor e a Causa Sagrada do Brasil)

Antônio Gramisc, um teórico político, nos mostra que a sociedade é divida em blocos históricos e que estes agem de acordo com seus interesses e por isso a tendência é sempre classificarmos os grupos sociais por sua cultura e conflitos de interesses. Neste caso o “bloco histórico” dos Homens de cor vem utilizar o contexto da guerra na busca de sua legitimação como ser social dentro do cenário nacional, esta passa ser a verdadeira função da Legião Negra.

O Jornal, A Gazeta, de 05 de setembro de 1932, vem relatar o caso de Maria José Bezerra, cozinheira da família Penteado Mendonça. Alistou-se, fazendo-se passar por homem para poder lutar pela causa da constitucionalidade brasileira; exemplo maior de mulher voluntária no Movimento Constitucionalista de 32.  Coloca o jornal:
Uma mulher de cor, alistada na Legião Negra, vencendo toda a sorte de obstáculos e as durezas de uma viagem acidentada, uniu-se aos seus irmãos negros em pleno entrincheiramento na frente do sul, descrevendo a página mais profundamente comovedora, mais cheia de civismo, mais profundamente brasileira, da campanha constitucionalista, ao desafiar a morte nos combates encarniçados e mortíferos para o inimigo, MARIA DA LEGIÃO NEGRA! Mulher abnegada e nobre da sua raça (Trecho do jornal)

            Para terminar nossa reflexão sobre a participação do negro da revolução, não podemos deixar de explicitar que existem poucas obras sobre isso, considerando apenas a chamada A Legião Negra, a luta dos afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932, de Oswaldo Faustino. Em depoimentos, muitas comunidades reclamam da falta de material da participação dos negros em muitos fatos históricos.

FONTE:http://profludfuzzisocial.blogspot.com.br/2013/07/os-negros-na-revolucao.html

Foto de mulher negra desafiando policiais vira símbolo dos protestos nos EUA


A enfermeira Leisha Evans participou das manifestações em Baton Rouge e acabou sendo presa

 A foto de uma mulher negra desafiando policias em uma manifestação em Baton Rouge, no estado de Louisiana, virou símbolo dos protestos nos Estados Unidos contra a brutalidade das forças de segurança.

Uma onda de protestos foi desencadeada na semana passada após a morte de dois negros por policiais brancos em Minnesota e em Louisiana, agravando ainda mais as tensões raciais no país.
Em uma das manifestações em Dallas, na noite de quinta-feira, um franco-atirador matou cinco policiais dizendo-se decepcionado com os brancos. A imagem do fotógrafo Jonathan Bachman, capturada no sábado, retrata a enfermeira Leisha Evans, de Nova York.
Com um vestido longo e carregando nada mais que seus objetos pessoais, a mulher posiciona-se em frente aos policiais armados, à espera de que eles a prendessem. A foto está dando volta ao mundo, foi amplamente repercutida nas redes sociais e ganhou montagens até com a figura de Martin Luther King.
Em uma entrevista ao jornal “The Atlantic”, Bachman relatou que os policiais estavam detendo várias pessoas no protesto em Baton Rouge.
A câmera do fotógrafo, então, capturou a imagem da mulher, que se colocou diante dos agentes sozinha e de forma pacífica.
“Ela não foi violenta, não disse nada, não resistiu. No final, a polícia a deteve”, explicou o fotógrafo.
A imagem, um símbolo de protestos não-violentos, lembra outras fotografias como a tirada por Marc Riboud, na Guerra do Vietnã, quando um manifestante colocou-se na frente de policiais armados com uma flor na mão.
Lembra ainda a imagem de um manifestante que se posicionou diante de um tanque em Tiananmen, na China.
FONTE:http://www.geledes.org.br/foto-de-mulher-negra-desafiando-policiais-vira-simbolo-dos-protestos-nos-eua/

O SILÊNCIO DOS CÚMPLICES

Marcelo Silles
Assistente Social

O prognostico de uma sociedade desigual no que se refere a raça no Brasil, é algo inevitável e inquestionável. Cotidianamente somos tolerados barbaramente por uma sociedade racista, vil, intolerante e desumana.

Aos olhos das pessoas de bem, somos tido como vitimistas que devemos tolerar qualquer ação que nos humilhe e nos deixe constrangidos diante de uma plateia pública do senso comum. Temos que aceitar as palavras lançadas para qualificar negativamente nossa cor, cultura, ancestralidade e identidade, calados em silêncio, pois, qualquer tentativa de repúdio a essas ações, somos tido como vitimistas e seres inferiorizados.

Se ao tomarmos para nós essas dores e duras palavras e revidamos os ataques frontalmente, somos tidos como o oprimido querendo ser o opressor, que violência não se resolve com violência, que sofremos de complexo de inferioridade pois são somente piadas. Eis a questão clara nossa cor pode servir de chacota e piadas infames, mas a cor dos brancos não.

Pior do que um ser racista é o cidadão de bem omisso, que fica indignado mas calado, que se indigna em silêncio. Como sempre afirma a máxima de Martim Luther King:

"O que me preocupa não é o grito dos maus, mas sim o silêncio dos bons."

Professora usa rap e funk para ensinar História: 'Não estudei para domesticar aluno'

Ane Sarinara tem 27 anos e é professora há oito; é militante do movimento negro e feminista e, homossexual assumida, também combate o preconceito contra a comunidade LGBT.
Um aluno entra na sala e coloca não o caderno, mas uma arma sobre a mesa. Outro salta pela janela do segundo andar, no meio da aula, para fugir de um traficante. Uma garota entra correndo e chorando após ter conseguido se livrar de dois colegas que tentavam abusar dela no banheiro.
O estresse causado por situações como essas já fizeram a professora Ane Sarinara, que ensina História na periferia de São Paulo, se afastar do trabalho e até pensar em desistir. Mas recentemente ela criou uma estratégia para envolver os alunos nas aulas: usar funk e rap para trazer um pouco do cotidiano difícil deles para a sala.
"A escola está completamente fora da realidade deles, e educação, sem significado, não tem sentido nenhum. É aquela ideia: você finge que explica, eles fingem que entendem. São cidadãos que não gritam, que não berram, omissos, obedientes. Costumo dizer que não estudei para domesticar aluno. Querem que eu faça isso, mas eu não consigo", conta ela à BBC Brasil.
Para quem questiona a opção por esses ritmos musicais, a professora de 27 anos, há oito na profissão, tem a resposta na ponta da língua: "os alunos gostam disso, é o que eles escutam e é a linguagem que eles sabem".
Funk escrito por alunos de Ane do 1º ano do Ensino Médio na Fundação Casa.
Funk escrito por alunos de Ane do 1º ano do Ensino Médio na Fundação Casa
"Outros professores tratavam isso como indisciplina. Só que eu sou da periferia, escuto funk desde que me conheço por gente", lembra. "Sugeri que ele escrevesse um funk sobre a matéria - foi a forma que encontrei para ele fazer parte da aula."

Quando o garoto apresentou o trabalho, ela percebeu que a tarefa havia "conquistado" não só a atenção dele, mas de toda a sala.
"Um dos meninos se ofereceu para fazer o beatbox (reprodução de sons com a boca e o nariz), outro pegou a lata de lixo, outros batucavam na mesa, batiam palmas", recorda.
"Nisso, a diretora entrou para perguntar o que estava acontecendo. Para ela, parecia uma zona. Mas não era: a gente estava tendo aula."

Resistência
Ane montou um tribunal na sala de aula para que os alunos estudassem e representassem os dois lados: polícia e tráfico

Ane expandiu a experiência para além da música.
Uma vez, por exemplo, dividiu os alunos em dois grupos e criou um tribunal: o primeiro representaria a polícia e o outro, o tráfico.
"Na periferia, a polícia é muito mal vista porque chega sempre com violência. Mas a ideia era mostrar para eles que o tráfico, que é quem acaba fazendo as melhorias que eles precisam na região em que o Estado é ausente, não tem só coisas positivas."
Mas fugir do "padrão" também trouxe problemas: diretores e outros professores reclamavam de que Ane era "liberal demais", e que seus alunos saíam achando que "podiam fazer tudo" nas outras aulas.
"Eles diziam: 'alguns pais estão reclamando, se eles forem na Diretoria de Ensino você vai ter que se retirar da escola'. E eu respondia: 'não vou mudar, não estou fazendo nada de errado'."
Além de não ter desistido, ela hoje aplica seu método também na Fundação Casa (instituição que abriga menores de idade infratores em São Paulo). Onde, aliás, enfrenta os mesmos problemas causados pelo modelo convencional.
"Quando entro na Fundação Casa, lembro das grades da minha escola. É igual. Não vejo diferença. A escola é uma prisão, a única diferença é que ela não tem seguranças. O resto é tudo igual. A mesma rotina, as mesmas grades, aquela lousa lá na frente, professor estressado."

'Cara de prisão'
Mural no qual alunos completaram a frase: "Os direitos são garantidos com..."

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Ane sentiu na pele os desafios que seus alunos têm no dia a dia.
Ela morava com a família em Jandira, na região metropolitana, mas aos quatro anos teve de ir morar em um orfanato na vizinha Carapicuíba. Viciado, seu tio passara a enfrentar problemas com traficantes, que ameaçaram a família toda.
No orfanato, conheceu o racismo, apanhou sem saber o porquê e enfrentou as amarras da escola, que para ela sempre teve "cara" de prisão.
"A escola era uma prisão, é uma grande jaula. Você joga as pessoas lá, transforma todas elas em máquinas de obedecer sem questionar, mostra um mundo fora da realidade delas. Era como eu me sentia dentro da escola: presa."
Ane foi morar em Osasco - onde vive até hoje - e logo decidiu que queria ensinar. Mas com um objetivo: que seus alunos não sentissem o que ela sentia na escola.
"Pensava: como eu gostaria que tivessem me dado essa aula? Foi por isso que comecei a tentar essas coisas diferentes."
E decidiu permanecer na periferia para "devolver algo" algo ao lugar que a criou.
"As pessoas costumam estudar e trabalhar para poder sair daqui. Mas eu não penso assim. Não tenho que sair desse lugar, eu quero transformar esse lugar."

Cansaço
Ane usa raps como o de Tarja Preta, Falsa Abolição (Meninas Negras Não Brincam com Bonecas Pretas) para falar sobre racismo

Mesmo com o discurso repleto de esperanças, Ane admite o cansaço - ela acredita que "não vai durar muito tempo" na profissão.
"Não tem nada de legal nessa profissão. Parece exagero, mas é isso. Você é humilhado todos os dias, não tem nenhum reconhecimento. O que motiva o professor nesse país é o ideal dele."
Ela conta que, no decorrer dos anos, conseguiu bancar sua escolha de "mandar o currículo para o saco e fazer o que eu acho que tem que ser feito". Mas reclama do peso da missão.
"Jogam toda a carga em cima do professor. Tenho que educar, dentro e fora da escola, socorrer aluno, salvar aluno, salvar a sociedade… eu tenho que ser perfeita. Mas enquanto isso, o sistema está me arrochando dos dois lados, e você fica sem saber para onde correr. Geralmente a gente corre para o banheiro para chorar."
Ela diz cogitar abandonar a sala de aula por medo de sair de lá "de camisa de força". E, após citar números de professores que cometem suicídio, conclui:
"Muitos colegas meus já tomam tarja preta pra conseguir dar aula. Não quero ficar desse jeito. Aí é que está a questão: eu não consigo me adaptar ao sistema. Mas aí todo mundo me diz: vai chegar uma hora que você vai ter que escolher entre ficar e se adequar ou sair. E está chegando essa hora já."
FONTE:http://www.msn.com/pt-br/noticias/educacao/professora-usa-rap-e-funk-para-ensinar-hist%C3%B3ria-n%C3%A3o-estudei-para-domesticar-aluno/ar-BBufTFA

terça-feira, 12 de julho de 2016

CONDUTA MC´S. CARIACICA-ES, RAP CAPIXABA EM CENA.


Apresentação do grupo de Rap capixaba, da cidade de Cariacica-ES, Conduta MC´s no bairro de Rio Marinho em 09/07/2016.

Ex-ministra Luiza Bairros morre em Porto Alegre

Gaúcha ocupou pasta da Igualdade Racial no primeiro governo Dilma



RIO — A ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial Luiza Helena de Bairros faleceu nesta terça-feira, aos 63 anos, em Porto Alegre, em decorrência de um câncer de pulmão. A informação, confirmada por lideranças do Partido dos Trabalhadores, foi divuldada pelo “G1”.

Segundo o portal de notícias, não foram divulgadas informações sobre o velório. Luiza foi ministra do governo de Dilma Rousseff entre os anos de 2011 e 2014.

A ex-ministra nasceu em Porto Alegre, mas fez carreira política na Bahia, onde ocupou a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Bahia no governo de Jaques Wagner. Mestre em ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em sociologia pela Michigan State University, Luiza Barros se graduou em Administração Pública e de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Em seu perfil no Facebook, a presidente afastada Dilma Rousseff prestou homenagem à trajetória de Luiza e solidariedade a seus familiares.

“Hoje é um dia triste para todos do movimento negro e daqueles que lutam pela igualdade racial no Brasil”, publicou a petista.


FONTE:http://oglobo.globo.com/brasil/ex-ministra-luiza-bairros-morre-em-porto-alegre-19692256

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Abandono, a pena mais sofrida de mulheres nas prisões do Rio


Apenas 1,6% dos maridos mantém vínculo com internas nas cadeias do estado
Solidão. Denise: “Meu marido até foi na delegacia quando fui presa. Depois, desapareceu. Enquanto outras pessoas recebem visitas, fico na minha cela, chorando. - Agência O Globo / Marcelo Carnaval



RIO - As quartas-feiras, os sábados e os domingos tornaram-se para elas dias de tristeza e angústia. Cumprindo pena no presídio feminino Talavera Bruce, no Complexo Penitenciário de Bangu, Denise Cristina Luciano de Souza, Rosângela Chagas e Sandra Regina de Souza fazem parte da estatística de detentas abandonadas pela família e pelos companheiros logo após a prisão. Para elas, o dia de visita se resume a ficar na cela. Mesmo assim, elas se penteiam e se arrumam. É a forma de manterem viva a esperança de que voltarão a ver um ente querido quando o portão principal da unidade se abrir para as visitas.

Dados da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) mostram que apenas 34 das 2.104 (1,6%) internas das seis unidades prisionais femininas do estado recebem visita íntima, direito adquirido apenas em 2001, 17 anos após a promulgação da lei que garantiu essa regalia aos homens. Um número irrisório, se comparado aos 2.183 dos 40.746 presos (5,3%) que encontram as companheiras no parlatório. No Talavera Bruce, das 382 presas somente 13 recebem os parceiros. Desses, cinco são companheiros ou maridos que estão em liberdade e oito, prisioneiros de outras unidades.

Denise, de 20 anos e prestes a dar à luz, foi detida no dia do chá de bebê, há três meses, quando carregava uma encomenda, que não sabia ser de drogas. Com direito a visitas íntimas e dos familiares, ela está no pavilhão para grávidas e não sabe o que vai fazer quando a menina nascer:

- Meu marido até foi na delegacia, assim que fui presa. Depois, desapareceu. Tenho medo que nossa filha seja entregue a um abrigo, porque ninguém me procurou mais. Enquanto outras pessoas recebem visitas, fico na minha cela, chorando.

Presa há dois anos e três meses, quando tentava entrar com drogas na Penitenciária Lemos de Brito ao visitar o marido, Rosângela, 40 anos, diz que ele conheceu outra mulher, com quem se casou. Sem a visita dele e da família, ela conta os dias para completar a pena de cinco anos e seis meses. Quer retomar a vida e criar o filho, de 5 anos.

- Deixava de comer carne para levar para ele na cadeia. Foram dez anos de fidelidade, como amiga e amante. Ele dizia que me amava. E agora? - questiona.

O abandono das mulheres nos presídios femininos é um problema antigo. Em 1983, a ex-diretora do Desipe, socióloga e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, Julita Lemgruber, abordou o tema no livro "Cemitério dos vivos". Segundo ela, a mulher presa representa tudo o que a sociedade rejeita:

- A mulher transgressora não é considerada digna de respeito e atenção. Isso é cultural. É um problema nos cárceres do mundo inteiro. A expectativa de uma sociedade machista e patriarcal é que a mulher seja dócil e respeite as normas da família. Ao cometer um crime, ela rompe com a sociedade duas vezes e é abandonada. É castigada duplamente.

A análise de Julita encaixa-se ao caso de Sandra, de 27 anos, que está no final da gravidez. Presa há cinco meses com grande quantidade de drogas em casa, desde então nunca mais viu o marido e os quatro filhos.

- Não esperava isso dele. Já pensei até em suicídio. Se ninguém vier, minha menina será levada para um abrigo - diz.

Cientista político e pesquisador do Laboratório de Análises Criminais da Uerj, João Trajano diz que o homem, mesmo preso, consegue manter o vínculo de chefe da família, diferentemente da mulher. Mas ele acredita que a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) tenha condições de melhorar o quadro:

- A Seap deveria humanizar a pena das mulheres. A privação da liberdade já é a pena. Ficar sem a família é um duplo castigo.
O titular da Seap, coronel Erir Ribeiro Costa Filho, diz que está estudando com o setor de assistência social uma forma de reaproximar as presas das famílias.
- Vamos conversar e sugerir mudanças que possam ajudar na ressocialização - afirma.



FONTE:http://oglobo.globo.com/rio/abandono-pena-mais-sofrida-de-mulheres-nas-prisoes-do-rio-16313782 

sábado, 2 de julho de 2016

A ORIGEM DO MOVIMENTO NEGRO DO BRASIL


TEXTO: Mariana Brasil | Acervo Agência Globo | Adaptação web: David Pereira
Saiba as origens do Movimento Negro no Brasil 
Era 18 de junho de 1978 quando Robson Silveira da Luz, um feirante negro de 27 anos, foi acusado de roubar frutas em seu local de trabalho. Levado para o 44º departamento de polícia de Guaianazes, zona leste de São Paulo, foi torturado e morto por policiais militares sob a chefia do delegado Alberto Abdalla. Semanas depois, um grupo de 4 jovens foi impedido de jogar vôlei no hoje extinto Clube de Regatas tietê. Fazia 90 anos da abolição da escravatura.

Em resposta a esses fatos, um grupo de militantes negros se reuniu em um casarão no início da Rua da Consolação, em São Paulo, para discutir a construção de um movimento que pudesse mobilizar o Brasil contra a discriminação racial. Na lembrança de Hélio Santos, doutor em economia, administração e finanças e militante do movimento negro brasileiro, a manhã daquela reunião, que geraria muita repercussão nos anos vindouros, foi gasta discutindo o nome que o movimento teria. “Éramos eu, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, os irmãos Celso e Wilson Prudente e muito mais gente”. O nome que prevaleceu foi Movimento Negro Unificado – nascia assim o MNU.
A primeira decisão tomada pelo grupo recém-formado foi ir às ruas protestar. Na fria manhã do dia 7 de julho, posteriormente transformado em data comemorativa do Dia Nacional de Luta Contra o Racismo, mais de três mil pessoas se reuniram em frente ao Theatro Municipal de São Paulo – palco, em 2013, de grande parte das manifestações contra o aumento na tarifa dos transportes. A manifestação de então, intitulada Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial, não era, obviamente, bem vista pelo governo vigente: era a época da ditadura presidida pelo general Geisel, e a política estatal se esforçava em ignorar a questão racial e em mostrar o país como uma democracia das raças. Em um ambiente de muito medo, os manifestantes agitavam cartazes e clamavam palavras de ordem em meio a agentes infiltrados do Serviço Nacional de Informação (SNI) e da Polícia Federal. “Eu lembro de vários policiais federais infiltrados, inclusive negros, se passando por jornalistas e entrevistando Lélia, Abdias e os outros dirigentes do movimento”, rememorou o professor Hélio.
A militante negra Lélia Gonzalez | FOTO: Acervo Agência Globo
Em um documento que se encontra atualmente no arquivo Ernesto Geisel, depositado no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, um agente da repressão estatal escreveu: “Realizou-se em São Paulo, no dia 7 julho de 1978, na área fronteiriça ao Theatro Municipal, junto ao Viaduto do Chá, uma concentração organizada pelo autodenominado ’Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial’, integrado por vários grupos, cujos objetivos principais anunciados são: denunciar,permanentemente, todo tipo de racismo e organizar a comunidade negra. Embora não seja, ainda, um movimento de massa”. Os dados disponíveis caracterizam a existência de uma campanha para estimular antagonismos raciais no País e, paralelamente, revelam tendências ideológicas de esquerda. A presença no Brasil de Abdias do Nascimento, professor em Nova Iorque, ativista negro, ligado aos movimentos de libertação na África, contribuiu para a instalação do já citado “Movimento Unificado”. Outro documento do mesmo ano advertia que “esses movimentos, caso continuem a crescer e se radicalizar, poderão vir a criar conflitos raciais.”

A manifestação seguiu pacífica e, apesar da tensão, terminou sem casos de violência policial. Mas a vida da maioria dos seus organizadores não foi a mesma nas décadas que se seguiram. “Durante esse período da luta dos anos 70, o meu telefone foi grampeado várias vezes por conta da minha militância. O meu e de outros. O MNU era considerado pelo governo como subversivo, o racismo era um tema tabu”, relembra Hélio. Ivair Alves dos Santos, professor de Ciências Sociais na UNB e vice-presidente do primeiro conselho da comunidade negra, criado no governo Montoro, em São Paulo, também esteve presente na manifestação. Lembra com tristeza das consequências que viu seus amigos sofrerem por terem participado de um movimento que buscava direitos em tempos de ditadura. “Aquilo afetou profundamente a vida das pessoas, de uma forma muitas vezes negativa. Muitos que lideraram aquele processo tiveram a vida profissional e pessoal modificada, acabaram perseguidos pela polícia, pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tiveram uma vida muito conturbada. Alguns foram levados ao suicídio por essa perseguição. As principais lideranças pagaram um preço alto, nunca usufruíram do sucesso daquele movimento, nunca foram lembradas ou efetivamente homenageadas.” A luta de 1978 mudaria muita coisa nos anos seguintes. Apesar das consequências funestas para muitos, a manifestação de 7 de julho de 1978 catalisou um sentimento de insatisfação e de luta por direitos contra o racismo que estava plantado em comunidades negras do país inteiro