quinta-feira, 3 de abril de 2014

Racionais MCs completa 25 anos com o desafio de buscar outras sonoridades e apostar na renovação do rap

Grupo se orgulha de dar voz ao negro e à periferia brasileira


Um quartinho, o microfone e o ventilador. Assim o rapper Ice Blue descreve o estúdio da Rádio Favela encarapitado no Aglomerado da Serra. Naquele comecinho da década de 1990, ele, Mano Brown, KL Jay e Edi Rock costumavam subir o morro de BH em busca de espaço para seu trabalho na emissora, então pirata. Dava até tempo de jogar com a galera da quebrada no campo Bola de Ouro. Hoje à noite, o quarteto volta a Minas. Mais importante grupo de rap do país, o Racionais MCs vai abrir seu 25º ano de estrada com show em Contagem.

“Montamos a nossa banda na cidade mais racista e preconceituosa do Brasil”, relembra Ice Blue, referindo-se à São Paulo da década de 1980. Ignorados pela sociedade, jovens pobres morriam anonimamente nas favelas e periferias brasileiras, executados pela polícia, por justiceiros ou durante guerras de traficantes. O Racionais MCs deu voz a negros, favelados, garotos à beira do crime, jovens que resistiam à vida bandida, ladrões e presidiários. Desta vez, o cidadão “invisível” era o sujeito de seu próprio verbo. O canto falado expôs o apartheid nacional, o racismo, o futuro roubado das crianças.

Avesso a entrevistas – só mais recentemente essa e outras rígidas posturas ideológicas se flexibilizaram –, o quarteto foi acusado de fazer apologia da violência e de glamourizar a vida bandida. Ice Blue garante: isso não é verdade. Para ele, valeu a pena “afrontar o sistema, dizer não para a mídiapoderosa e pôr a cara para apanhar”.

Revelação do hip-hop nacional, Emicida, de 28 anos, diz que a obra do Racionais é o “livro de história do Brasil” de sua geração. “Eles foram, são e sempre serão a maior bandeira do rap brasileiro, o golpe mais forte que a gente deu no sistema”, afirmou o rapper no programa Ensaio, exibido pela TV Cultura.

 “Trouxemos o orgulho negro de volta”, concorda Ice Blue. “Hoje, o moleque diz que mora na favela; o filho do branco e do preto se assume como negro, usa cabelo afro”, constata. Mas se há esperança e autoestima, o preconceito persiste, adverte ele, citando a repressão aos rolezinhos nos shoppings centers do país. Chacinas, milícias, narcotráfico e polícia continuam ceifando vidas nas comunidades pobres. Mas a periferia tem a sua voz. Deixou de ser invisível. 

“Muita coisa ainda precisa ser feita”, diz Blue, lembrando que o próprio morador da periferia se acomoda ao abandonar os estudos e desistir de lutar. “Mas volto a dizer: o Brasil mudou, o PT já está em seu terceiro mandato, até o crime organizado mudou”, reforça, argumentando que conflitos entre facções já não dizimam jovens como há 30 anos, embora a violência continue. Engajado em ações arte-educativas, o grupo faz política. Apoiou publicamente as candidaturas de Lula e de Dilma Rousseff.

Versos dos Racionais conquistaram seu espaço também “do outro lado da ponte”. “Pessoas que não concordavam com o sistema tiveram o rap como hino”, diz Blue. Não são poucos os garotos de bairros bacanas que sabem de cor os versos de Negro drama ou de Vida loka. Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock têm se apresentado em palcos de casas sofisticadas. Racionais MCs, queridinho da finada MTV, também é cult.

O país de 2014 não é o país de 1989. Brown promete CD solo. O poeta durão surge com letras românticas, sonoridades inspiradas na disco music. Edi Rock lançou o elogiado Contra nós ninguém será e cometeu a “heresia” de divulgá-lo na TV Globo, na contramão do discurso antimídia da “família Racionais”. Ele alega que quer cantar para todos os brasileiros. Blue prepara seu CD em parceria com Helião, do grupo RZO.

Vem aí caixa comemorativa dos 25 anos com a discografia completa. Nos últimos anos, o quarteto lançou canções esparsas. Uma delas é a vigorosa e politizada Mil faces de um homem leal  homenagem a Carlos Marighella, ícone da esquerda brasileira e tema de documentário. O grupo acaba de estrear no mercado digital com coletânea vendida no iTunes. Também marca presença nas redes sociais. 

BATIDÃO Há quem diga que o espaço do pioneiro  do rap brasileiro, há 11 anos sem lançar disco, foi ocupado pelo funk carioca. Ice Blue nega qualquer disputa. “Pelo contrário. É tudo música da periferia, da favela. Onde vai o funk vai o rap também”, avisa, lembrando que o batidão “dá oportunidade aos moleques de trabalhar, de ter uma profissão e de cuidar da família”. 

Orgulhoso da nova safra de rappers brasileiros, Ice Blue, sem esconder a admiração, diz que Criolo e Emicida estudaram na faculdade e falam inglês, enquanto a música de sua geração surgiu de artistas que mal completaram a 5ª série. “Eu mesmo fui só até o 1º colegial”, revela. 

E o Racionais, vi para onde? “A gente quer trabalhar mais o lado ser humano, o eu. É preciso mexer com os sentimentos das pessoas, com as coisas da humanidade, ser mais amoroso. O lado duro a gente já tem, já mostrou”, diz ele. Sem álbum solo desde 2002, o quarteto planeja para 2014 o sucessor do clássico Nada como um dia após o outro dia. “Estamos devendo isso aos fãs”, reconhece Ice Blue.

NA PISTA Talento do rap nacional, o mineiro Flávio Renegado, de 30 anos, agradece ao Racionais por abrir caminhos para a música brasileira contemporânea. Ele não se esquece do dia em que ouviu Fim de semana no parque. Tinha 13 anos, acabara de voltar da capoeira e escutava a Rádio Favela. Aquilo foi uma revelação. 

Flávio acredita que o rap demanda novos diálogos e sonoridades. Ele quer buscar o equilíbrio entre as letras conscientes e o suingue. “Sou empreiteiro da aproximação com a MPB”, diz o mineiro, convidado especial do último DVD da cantora Bebel Gilberto – o outro era Chico Buarque. Recentemente, Mano Brown avisou a Renegado: “Meu carro corre na pista de todos vocês”. 

OSTENTAÇÃO
O funk ostentação não é problema para Ice Blue. De acordo com ele, desde o início, o Racionais defendeu em suas letras o direito do pobre de ter acesso ao bom e ao melhor. “Sempre falamos de cordão de ouro, de Citröen, de tênis. As pessoas têm direito de ganhar o seu dinheiro, de conquistar o melhor, um carro legal. O pobre deve trabalhar, estudar, abrir o próprio negócio, conquistar cargos públicos importantes ou ser empresário. Não é só ficar preso ali, no tênis de marca. Ou, então, ser um ótimo pedreiro, um bom mestre de obras. As pessoas querem o quê? Que o sujeito continue a morar num barraco de pau?”, questiona. 

RACIONAIS MCS
Espaço Vip Contagem. Avenida Babita Camargos, 199, Cidade Industrial. Hoje, a partir das 22h. Abertura: DJ Dudu BH. O show está previsto para a 1h. Ingressos: R$ 30 e R$ 40.  Camarote: R$ 70 (fem) e R$ 140 (masc). Informações: (31) 8737-4710.

FONTE:http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/musica/2014/01/18/noticia_musica,150596/herois-da-resistencia.shtml

sexta-feira, 28 de março de 2014

ENTREVISTA: Chilli, Do TLC Fala Sobre Música Nova, TV, A Turnê Do Grupo E Muito Mais.


A combinação perfeita entre Rap, R&B e Funk fez do TLC um dos grupos femininos mais inovadores da música, levando o trio ao posto de segunda banda feminina que mais vendeu na história. Hoje, exatos 22 anos após o lançamento do primeiro álbum, o trio, antes composto por T-Boz, Left Eye e Chilli, foi reduzido a dupla após a morte da rapper Left Eye. Mas as duas remanescentes continuam com força total nos projetos do grupo. E o site windycitymediagroup entrevistou a Chilli, que em um papo bem descontraído falou sobre os planos futuros da banda, na música e nos palcos. 

                                  A entrevista completa você pode conferir a seguir. 


Windy City: Oi Chilli. Ontem eu fiquei até tarde a noite assistindo o filme do TLC.
Chilli: Você chorou?

Windy City: Não!
Chilli: Qual é?!?

Windy City: Bem, eu me emocionei bastante. Eu entrevistei Dionne Warwick há alguns anos atrás e ela me falou que queria que Keke Palmer a interpretasse em um filme sobre a vida dela.
Chilli: Sério? Que engraçado.
Poster do Filme "CrazySexyCool:The TLC Story"

Windy City: E você escolheu Palmer para te interpretar no filme. A responsabilidade foi grande para esse filme.
Chilli: Nós estávamos tão felizes por isso. Obviamente é uma benção fazer parte do projeto que conta sua história. Muitas vezes vemos histórias assim serem contadas, mas as pessoas não estão mais entre nós.


Windy City: Eu sinto falta das cores fortes dos anos 80.
Chilli: Foi nos anos 90. Nos anos 80 eu ainda estava no ensino médio. Não me envelheça! (ambos caem na gargalhada)


Windy City: Interessante que você quase foi substituída no grupo. Isso teria mudado sua vida.
Chilli: Sim, foi uma loucura.

Windy City: Qual foi a reação de Pebbles sobre o filme?
Chilli: Ela não gostou da maneira que ela foi retratada. Chegou a falar em processo, mas ela não pode nos processar, porque não há difamação na personagem. Ela apareceu em algumas entrevistas e fez o que ela queria.

Windy City: Dallas Austin estava fofo no filme.
Chilli: Evan Ross? Ele fez um excelente trabalho. Ele e Dallas são grandes amigos, então ele pôde conversar com ele e pegar várias informações importantes sobre a personagem.

Windy City: Você realmente trabalhou com a Kandi Burrus, que escreveu "No Scrubs"?
Kandi Burrus, com Chilli e T-Boz em estúdio
Chilli: Eu realmente estava me sentindo estranha no estúdio, então eu disse para ela: "Eu te amo de verdade, mas você não pode ficar aqui e assistir!". Então eu fiz algumas mudanças na letra dela, porque eu queria torná-la mais pessoal e ela estava totalmente aberta e liberal em relação a isso. Era eu, o engenheiro de som e o She'kspere, produtor que gravou a música. Eu finalizei "No Scrubs" em umas cinco horas, incluindo o fundo e tudo mais.



Windy City: Vocês estavam completamente envolvidas nas músicas.
Chilli: Oh, com certeza. Nós sabemos do que gostamos.

Windy City: Você assiste o "Real Housewifes Of Atlanta"? 
Chilli: Não. Esse n]ao é meu 'guilty pleasure', eu tenho alguns outros...

Windy City: Você fez um reality show chamado "What Chilli Wants". Você faria isso de novo?
Chilli: Eu não diria não se isso fizer sentido e estiver no caminho certo. Eu não sou o tipo que fica xingando para chamar atenção do pessoal para o reality show, especialmente hoje em dia. Essa não sou eu. Se for algo que eu me sinta confortável, no canal certo, com o público certo e faça algum sentido, então com certeza eu topo.

Windy City: Eu estava pensando no Dancing With The Stars...
Chilli: Oh, eu adoraria fazer isso. Seria divertido. Sabe o que é engraçado? Eu sempre achava que as pessoas que realmente dançam não poderiam estar nesse tipo de programa. Eu não sei como dançar dança de salão e valsa. Parece fácil, mas quando você assiste e ver as estrelas se preparado para isso, então é muito diferente do que eu faço. Eu pensei sobre isso de novo e gostaria de estar no show. 

Windy City: Como você se sentiu quando "Unpretty" foi interpretada pelo pessoal do Glee?
Chilli: Oh meu Deus, eu amei! Eu estava saltitante. Nós tínhamos que aprovar, e eu simplesmente achei maravilhoso. Eu estava tão animada e feliz por eles quererem cantar nossa canção. Eu tô te dizendo, eu me senti na lua com isso.

Windy City: Eles misturaram com um pouco de 'West Side Story'.
Chilli: Eu sei. Eles foram bem criativos com isso. Eu amei como eles fizeram. Eu não tenho do que reclamar. 

Chilli exibindo tanquinho ao lado do Jay-Z
Windy City: Vocês têm muitos fãs gays. Precisamos que vocês toquem em nossa parada gay no verão.
Chilli: Sabe de uma coisa? No final das contas nós amamos performar. Não importa para quem nós estaremos performando, me coloque num palco e me dê um microfone e eu estou pronta para atacar.

Windy City: Tiro o chapéu pela ousadia do TLC promover o sexo seguro no começo.
Chilli: Parece que precisamos lançar outra música que promova o sexo seguro. Problemas como sexo seguro e amor próprio, nós sempre buscamos encorajar as pessoas nesse caminho, apesar da diferença entres as gerações, você e eu somos adultos mas vai ter sempre alguém tentando te colocar para baixo. Pode ser no trabalho, ou num relacionamento e aí você ouve uma canção com um a letra certa que irá te ajudar na caminhada. Eu acho que esse tipo de música é sempre necessária. 

Windy City: Você sempre malha muito para ficar exibindo essa barriga tanquinho?
Chilli: Quando eu tiver 89 anos de idade eu ainda estarei exibindo meu abdômen tanquinho! Pode ser que eu não mostre minhas pernas, mas sempre vou mostrar minha barriga, talvez meus braços ou algo mais. Eu tenho sido consistente. É o que eu falo para o pessoal, você tem que estar certo de não ficar comendo bobagem o tempo todo. Na maior parte do tempo o importante é o estilo saudável de vida que você leva. Não estou falando de dietas, mas em descobrir um programa de exercícios adequados que você goste.      

Windy City: Foi difícil depois de ter um bebê?
Chilli e seu filho Tron
Chilli: De jeito nenhum! É engraçado porque Lisa, minha parceira de grupo, me falou com aquela voz alta dela, que minha barriga ficou bem melhor depois que eu tive bebê. Eu acho que foi porque eu me dediquei mais aos exercícios depois que eu tive meu filho. Quando "No Scrubs" foi lançado Tron ainda era um bebê de colo. Eu perdi muito peso quando eu estava amamentando. Meu metabolismo subiu para além do telhado. Teve toda essa combinação. Então eu tive que parar de amamentar para poder ganhar um pouco de peso. "Alimentar as Crianças?". Essa era eu!

Windy City: Quantos anos o Tron tem?
Chilli: Ele está com 16 anos de idade. Dá pra acreditar?

Windy City: Eles crescem tão rápido.
Chilli: Eu sei. Eu tenho que me apressar e ter outro urgente!

Windy City: Ele vai em turnê com você?
Chilli: Oh, sim! Nós agendamos nossa turnê para Primavera e Verão, que é quando ele está de férias da escola.


Windy City: O que os fãs podem esperar dessa turnê?
Chilli: A gente sempre aparece com alguma novidade. Nós não gostamos de mudar os nossos hits, porque eu sei que eu odeio quando eu vou em um show e eles mudam as músicas. As pessoas querem cantar junto. Elaes querem ouvir cada ad-lib. Não mechemos muito nas músicas, mas mudamos um pouco. Tentamos fazer algo realmente bacana, as danças modernas e um 'breadown dance'. Não queremos que as pessoas fiquem andando pelo nosso show cansadas. Elas precisam sair de uma festa divertida para irem comer, ou ir pra casa dormir.

Windy City: Tem um bufê no Horseshoe Casino (onde o TLC fará show) onde eles podem comer.
Chilli: Hey!!! Bem, nós usaremos todo o espaço do Casino, então eles podem retirar esse bufê.

Windy City: Você joga?
Chilli: Eu não jogo. Nunca foi uma das minhas coisas. Eu tentei uma vez nos 'slots', joguei 50 centavos e ganhei 25 dólares. Eu fiquei feliz e foi isso. Além do mais, esses lugares costumam ter muitos fumantes e eu sou alérgica, então eu não posso frequentar muito esse lugares.

Windy City: Em Indiana eles ainda podem fumar nos Cassinos então se cuide. Que novidade musical vocês estão preparando?
J.Cole com o TLC
Chilli: Definitivamente isso nos ocupará nos próximos dois anos. Estamos tão ansiosas com turnês e algumas coisas que mantemos secretas e não anunciamos ainda. Anunciaremos em breve. Temos escutado as músicas que gravamos e decidindo o que queremos e o que descartaremos. Temos que decidir com quem queremos trabalhar. Estamos nos organizando e buscando formas divertidas para apresentarmos tudo isso, porque é muito importante para nós, sermos criativas e formadoras de opinião. É algo que sempre fizemos, e é isso que somos. Ao mesmo tempo, tudo tem que fazer sentido. As vezes você fala tanto que as pessoas não sabem do que você está falando. Nós não queremos seguir esse caminho, mas queremos ter certeza de que será algo muito louco. 

Windy City: Onde você quer que os fãs fiquei ligados com você?
Chilli: Eu definitivamente twitto muito. Eu chamo todos os meus seguidores no twitter de "Twitter Babies" e eles me chamam de "Twitter Momma". Eu estou muito no twitter, mas não muito no Instagram. Parece estranho ficar postando 'selfies' por aí, mas eu vou fazer isso um pouco mais.     

Windy City: Para essa turnê quem está na programação? Eu ouvi a possibilidade de Lil Mama aparecer nos shows.
Chilli: Ela foi tão incrível no filme (no papel de Lisa Lopes). Ela é uma grande fã da Lisa. Foi ótimo ter ela no palco homenageando-a. Temos conversado muito com Missy Elliott, sobre fazer algo assim também. Conhecemos muita gente da indústria que amava Lisa e tiveram um relacionamento com ela, não só rappers mulheres/cantoras, mas também muitos rappers masculinos, como quando tivemos o Doug E.Fresh com a gente no Superbowl Blitz. Foi tudo tão divertido e os fãs amaram, o que nos deixa muito feliz. Estamos felizes com a direção que estamos tomando nesse momento. 

Windy City: Estou ansioso para ver as novidades desse show.

Chilli: Oh, você vai estar lá é? Nós iremos te expulsar de lá e você vai ter que ir para o bufê. (risos)

Entrevista feita por: Jerry Nunn

Tradução: Salatiel L.Morais

FONTE:http://rollingsoulbrasil.blogspot.com.br/2014/03/ENTREVISTA-Chilli-Do-TLC-Fala-Sobre-Musica-Nova-TV-A-Turne-Do-Grupo-E-Muito-Mais.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+blogspot/NuNcuY+(Rolling+Soul)

quinta-feira, 27 de março de 2014

SER NEGRO NO BRASIL HOJE, BRASIL MODERNO, COMPETITIVO, DESENVOLVIDO E CONTEMPORÂNEO.

Marcelo Silles
Assistente Social com Bacharel da Universidade Federal Fluminense-Campos/RJ & Rapper

Agência Banestes bairro Campo Grande, Cariacica-ES. Ano 2007, mês outubro. Não lembro o dia, mas lembro bem dos primeiros nomes de minhas educandas Milena e Natália, na época as duas com 17 anos, uma negra e a outra morena. Era por volta de umas 10h, como as atividades haviam cessado cedo, na verdade foi apenas uma reunião no CRAS do bairro Padre Gabriel, resolvi ir a agência Banestes de Campo Grande para resolver assuntos relacionados à minha conta corrente. As meninas tinham que está em um estabelecimento no mesmo bairro e pediram para ir comigo, me acompanhar. Então fomos.

Chegamos cedo à agência e ficamos na fila como os outros clientes do banco. Quando abriu no horário de 10h, mediante a entrada das pessoas ao recinto e o constrangimento constante da porta-giratória, na minha vez fui barrado pelos seguranças que exigiam que eu colocasse o celular no compartimento a qual é designado junto com a bolsa e que eu levantasse a blusa. Prontamente neguei, pelos seguintes motivos: haviam passado, lembro-me bem com certeza onze pessoas a minha frente todas brancas e todas, disse todas portando celulares e bolsas, porque somente eu tinha que ser o revistado, o suspeito?

Após a minha negação pedi que as meninas ligassem suas câmeras e começassem a filmar. Dirigi-me aos seguranças e disse o seguinte: entraram na minha frente onze pessoas, todas com celulares e bolsas, todas brancas e nenhuma delas foi abordada em momento algum para tirar celulares e bolsas. Atrás de mim tem esse monte de gente querendo entrar inclusive muitos brancos e brancas. O barulho é o seguinte, eu posso até atender a solicitação dos senhores, mas só depois que as onze pessoas brancas retornem para o lado de fora e façam o mesmo inclusive as que estão atrás de mim também todos terão que passar pelo mesmo procedimento, depois de todo ocorrido aí sim realizarei o pedido informal dos senhores. Agora, caso não ocorra e continue essa persuasão e ameaça, tomarei as medidas cabíveis e farei um B.O.  acusando os senhores e a agência por racismo e entrarei com pedido de danos morais pelos constrangimento que estou passando em público.

Nisso veio o gerente para saber o que estava acontecendo pelo tumulto formado na porta-giratória. Relatei novamente tudo inclusive as minhas condições para atender ao pedido dos senhores seguranças. O gerente liberou a porta pra geral, pediu-me desculpas e não fiz o que os seguranças mandaram. As minhas educandas ficaram impressionadas. A multidão ficou titubeante e de boca-aberta, a maioria a meu favor. Sou um preto atrevido ainda mais quando consta dos meus deveres mais do que minhas obrigações.

Diante da presença maciça de atenuantes e agravantes epiteliais por parte da intimidação dos seguranças, que seguem a égide rígida comportamental que é manter marginalizados os já marginalizados cautelarmente como forma de garantia de acesso irrestrito das pessoas de “bem” de cor branca seguindo a cartilha de Nina Rodrigues, a sociedade que se diz do “bem” se revolta calada na mordomia do seu lar, do seu silêncio, da sua indignação pacata em agir conforme manda o roteiro cordial da democracia.

A culpabilidade da cor está evidenciada, ante a reprovabilidade da conduta do negro no meio social. Os antecedentes não lhes são favoráveis, as circunstâncias pesam em desfavor do negro diante de situações como esta vivida por mim. Para o negro não há dosimetria da pena, não há suavilidade e sim severidade nos olhares de repúdio, condenação e racismo. No que tange aos amigos e defensores dos negros, mas que não querem sonhar a guerra compete apenas à lamentação do porquê de alguns monstruosos racistas estarem à solta por aí, mas aceitam conviver com eles amorosamente. Mas eu não, pois para preto não existe o privilégio non bis in idem.

Esta semana revivi essa situação mediante dois fatos, o da minha colega Nina Silva e a da senhora Cláudia Ferreira arrastada covardemente por PM´s do Rio de Janeiro. Baleada Cláudia foi jogada dentro da caçamba de uma viatura como se fosse um animal não uma pessoa, cidadã, um ser humano. Ali podia ser ver nitidamente toda a violência praticada contra a dignidade humana, ali os direitos de cidadã foram reduzidos a relés coisa alguma dignidade violentada simplesmente por ser preta e pobre. Cláudia Ferreira, 34 anos, faxineira mãe de quatro filhos e cuidava de mais quatro sobrinhos, entra para o rol triste das estatísticas do genocídio do povo preto.

Nina Silva, nome Marina Silva, foi barrada impedida de entrar na agência Itaú Personnalité na cidade do Rio de Janeiro. Os seguranças mandaram que ela retirasse todos os pertences da bolsa para averiguação e colocasse os mesmos, de metais, no compartimento apropriado. Detalhe que havia entrado duas clientes brancas que não passaram pelo mesmo procedimento portando bolsa e objetos de metais. Crime de Nina, ser negra e está num ambiente no qual para os seguranças não era o dela, Nina burlou a regra branca redigida para os negros de “ponha-se no seu lugar.”


Nina Silva, Claudia Ferreira e eu concorremos para o mesmo, único e eterno crime tipificado, nascemos pretos. Para os olhos de muitos em massa ainda somos cidadãos de segunda-classe, inferiores sujeitos a chacotas, brincadeiras sem graça com a nossa cor, condição, cabelo etc. O engraçado é que se nós pretos começarmos a postar fotos zombando de brancos, de criancinhas brancas, como os racistas fazem por aí com negros e criancinhas negras e os não racistas também adoram, seremos chamados e tachados de racistas e oprimidos querendo ser opressores.



Ser negro no Brasil hoje é ser como negro antigamente, receber sempre não para o moderno, não para o competitivo, não para o desenvolvimento, não para a contemporaneidade. Ser negro hoje no Brasil significa ainda carrega os estigmas e marcas da escravidão, é ter que lutar sempre para fazer valer o que nós é garantido por lei, mas sempre é negado.


Carolina Maria de Jesus canta - Rádio Batuta


O sucesso de Quarto de despejo, o livro, motivou Quarto de despejo, o disco. A mineira Carolina Maria de Jesus, catadora de papel que se tornou escritora, gravou em 1961, um ano depois de seu best-seller, músicas que ela mesmo compôs. O raro LP pertence ao Acervo José Ramos Tinhorão, sob a guarda do IMS. Em homenagem ao centenário de Carolina Maria de Jesus, que se completa neste 14 de março, a Batuta apresenta as 12 faixas. Para ouvi-las, basta clicar aqui e em seus títulos, ao lado.

FONTE:http://www.radiobatuta.com.br/Episodes/view/563

MR. JUNIOR, o senhor dos pequenos rapper´s.

Rap/Hip Hop de campos dos Goytacazes-RJ




quarta-feira, 26 de março de 2014

GRUPO DE SAMBA "SOM MULHERES"



COACHING NA EMPRESA



Dentro de uma empresa, em cada função executada por um colaborador, existem metas a serem cumpridas, mas atingir o alvo estipulado não é nada fácil, é preciso de motivação, companheirismo, capacidade e muitos outros fatores. Sabemos que as pessoas que comandam a empresa ou o setor são os chefes, mas para essa meta ser atingida é preciso ser mais do que isso, é necessário ser um verdadeiro líder, um coaching. 

A função desse profissional é ajudar todos os  colaboradores de sua empresa, ele deve estudar detalhadamente cada um de seus funcionários, encontrando o melhor de cada um deles e auxiliando a potencializar  os pontos positivos através da motivação, auxiliando para que visualizem também os pontos fracos trançando metas para supera-los. 

O coaching ao explorar o melhor de cada funcionário, está consequentemente, melhorando os resultados de sua empresa, pois quando uma pessoa se sente bem em seu local de trabalho, ela executa com louvor suas atividades, e é isso que o líder deseja, através de sua postura amistosa com os colaboradores, colher resultados e garantir satisfação a todos ( clientes internos e externos). 

Como em uma equipe de futebol, o coachig dentro da empresa está junto à sua equipe, seu time, sua família, buscando resultados, melhorias e qualidades. Este profissional, destro da gestão empresarial, com todas essas as ações de liderança, procura satisfizer todos, ele, seus funcionários, seus clientes, seus fornecedores e todos, que de alguma maneira está vinculado à sua marca. 

Criando um ambiente de ganha, ganha onde todos os envolvidos  visualizam ganhos como reconhecimento profissional, aumento da auto estima dos envolvidos, qualidade de vida entre outros. 


FONTE: http://coachanaminuto.blogspot.com.br/2014/03/coaching-na-empresa.html

JASMINE SERIZZY DAVIS

Clique aqui e confira a sua New Music Feeds Jasmine Serizzy Davis



COMMA

Guaçuí no rap e hip hop nacional.




terça-feira, 25 de março de 2014

Campanha por Enedina – mulher, negra e pioneira

por Vanessa Fogaça Prateano

Você sabe quem é Enedina Alves Marques? Não são muitos os curitibanos e paranaenses em geral que conhecem ou já ouviram falar da história desta mulher. Mas deveriam. Enedina foi a primeira mulher a se formar engenheira pela Universidade Federal do Paraná – e a primeira engenheira negra do Brasil. Na década de 40, quando as brasileiras votavam não fazia uma década, o divórcio ainda não havia sido aprovado e não havia as cotas raciais, mecanismo mais do que justo para promover a inclusão daqueles que representam mais de metade da população brasileira.

Esta semana, Enedina começa a aparecer em rodas de conversa e nas mídias sociais. Isso porque há uma campanha, divulgada pela coluna Entrelinhas  da Gazeta do Povo, editada pela minha colega Marcela Campos, para que ela rebatize o Edifício Teixeira Soares, aquele perto da Ponte Preta, na Rua João Negrão, perto do Shopping Estação, no bairro Rebouças. O prédio pertenceu à antiga Rede Ferroviária Federal e foi doado à Federal, que em breve instalará ali um novo campus. Uma singela (ela certamente merece mais) homenagem a uma de suas alunas, pioneira e exemplo para várias gerações de mulheres.


Enedina já é nome de escola, batiza o Instituto Mulheres Negras de Maringá. Também mereceu busto do Memorial à Mulher Pioneira e o Instituto de Engenharia do Paraná não se esqueceu dela — é a instituição que cuida de seu túmulo. Mas certamente ela merece mais, a começar, por parte da UFPR. Em janeiro deste ano, quando se comemorou o seu centenário, não se soube de nenhum evento especial promovido pela universidade para lembrar de seu nome, Perdoem-me se eu estiver enganada, e deixem um comentário se conhecem alguma ação.

Este blog, portanto, pede encarecidamente a seus leitores que ajudem a engrossar a campanha. Se hoje ser mulher e negra dentro da universidade é um grande desafio — permeado por trotes machistas e racistas, por comentários e piadas humilhantes vindos de colegas e professores e por esteriótipos que cercam a mulher que vai para a área de Exatas e Tecnológicas –, imaginemos os leões que Enedina teve de matar para chegar lá. Vamos relembrar e manter viva essa história.

Para saber mais sobre ela, há esse  texto do meu colega José Carlos Fernandes, publicado há exato um ano. Também há um  trabalho  sobre ela na Revista Vernáculo, de autoria de Jorge Luiz Santana. Se você conhece outras fontes, por favor, publique nos comentários.

FONTE:http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/180-artigos-de-genero/24002-campanha-por-enedina-mulher-negra-e-pioneira

Eu, preta, pobre e crackeira - Por: Priscila Tamis

"Engoli uma frase qualquer, dessas que uma branca-intelectual-estudada-militante consegue articular. E senti cada vez mais perto todos aqueles olhos cheios de ódio, aqueles corpos agressores, aqueles dedos na minha cara. A polícia já estava ali, em cada um deles"

Por Priscila Tamis*

Hoje estava na rua Frederico Abranches, zona central de SP, no Complexo Cracolândia. Caminhava sozinha em direção ao metrô Pedro II. Peguei a passarela. No meio dela dou de cara com um amontoado de pessoas que rodeavam outras três. Dois homens imobilizavam outro que estava estendido no chão.

O que aconteceu?

O cara roubou a carteira dele!

O "cara" era um homem negro, alto, vestido de um jeans. Naquele momento o "cara" era um preto, pobre, crackeiro que tinha roubado uma carteira e tinha agora o rosto esfolado no chão.

"Ele" segurava os braços do "cara" e o pressionava com as pernas contra o chão, com a colaboração de um outro justiceiro qualquer.

Moço, você pegou sua carteira?

Eu tô com a carteira!

Então larga o "cara"!

Naquele momento o "cara" sentia na pele toda revolta e miséria política-afetiva que o corpo multidão pode portar.
Uma garota se aproximou com dedo em riste na minha cara.

Você é uma escrota!

Aí começaram os instantes dos mais oprimidos que já vivi – porque naquele instante eu já era outra. A pele escureceu, a grana da sobrevivência escapou e o crack me invadiu. Bem assim. Nunca, em nenhuma situação, em nenhum estudo, movimento social ou poéticas homônimas senti isso.

Ela sentia ódio. Me olhou no olho, como se fosse a última coisa que faria na Terra. E repetia.

Você é uma escrota!

Ela cada vez mais perto.

Ao mesmo tempo, um homem branco limpinho, de uns cinquenta anos, aproximou-se mais e gritou.
Você é cúmplice desse cara!

E outro qualquer – nisso meus olhos já quase não enxergavam – aproximou-se também.

Ele tá contendo o cara pra chamar a polícia! – esclareceu mais outro justiceiro.

Consegui que a roda se virasse pra mim. Quase todos ali me rodeavam. E aí o vômito chegou à garganta, engoli uma frase qualquer, dessas que uma branca-intelectual-estudada-militante consegue articular. E senti cada vez mais perto todos aqueles olhos cheios de ódio, aqueles corpos agressores, aqueles dedos na minha cara. A polícia já estava ali, em cada um deles.
Em 1919, em Omaha (EUA), o operário negro Will Brown é linchado, e sou corpo mutilado é queimado pela multidão branca. Realidade não tão distante (Library of Congress)

Eu era a preta, pobre, crackeira. Sem cristianismos. Senti o que jamais senti na pele. Nenhuma bomba de gás lacrimogêneo me fez sentir assim.
Bem assim. Eles estavam prontos pra rasgar minha cara no concreto, como faziam com o preto, pobre, crackeiro que bateu carteira. Eu roubava a dignidade que eles sentiam em reprimir. Bem assim. A força de multidão que os impulsionava, a força da alienação do efeito massa que pode acontecer quando um monte de gente se junta seja para o que for. Pelo menos seis pessoas estavam a menos de um palmo de mim. E eu, preta-pobre-crackeira-escrota senti a violência da polícia.

Eu não apanhei. Porque me calei, deixei o "cara" já de pé, mas ainda encurralado, virei as costas e segui. Aos soluços e engasgada com o vômito que não saiu. Mais ou menos cinquenta minutos – na intensidade felina dos mais ou menos cinquenta anos daquele senhor – de choro com soluço no metrô, na rua, no ônibus. Do afeto agonizante e humilhado não privei nenhum passante.

Afinal, a violência é de quem?

O drama do protagonista que é sempre o primeiro a agonizar a vida que se vive.

Hoje eu não subverti nada, não construí nada, pouco me manifestei. Fui gente covarde com medo de apanhar. 

Fui gente que quer viver e não se orgulha em sangrar. Fui gente cansada, rasgada no peito.

Nesse dia que fui branca e fui preta, que fui classe média-intelectual e fui crackeira, eu só queria, como quero todos os dias, que toda a gente pudesse ser gente nessa cidade.

Caros repressores,

Caros ressentidos,

Caras pessoas que reproduzem a lógica de massacre,

Diante de toda bomba e de todo dedo em riste,

Diante de todo medo que senti,

Posso dizer agora, neste mesmo dia de hoje, que vossa força reativa encarnou neste corpo que vos fala a máxima potência da indignação. Senti o que jamais vivi na minha vã filosofia militante. Senti no corpo o ódio da farda que vocês vestiram. Vocês ameaçavam com humilhação e estupidez inúteis a vida daquele homem. Vocês ameaçaram a minha vida.

Luto com tudo o que posso contra vossas fardas.

Luto contra as minhas fardas.

E se hoje pelo meio do dia eu não falei
Pela noite escrevo e publico.

Quando a gente se expõe ao acontecimento ele acontece.

Também tenho minhas armas.

(quais modos de existência estamos produzindo nessa cidade?)

Toda força aos que lutam!

*Psicóloga Esquizoanalista pela UNESP/Assis e AT. Mestre em Ciências pelo programa de pós-graduação em Mudança Social e Participação Política da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Integrante da Rede dos Fazedores de Arte na Atenção Psicossocial e Assessora / Programadora Cultural na Coordenadoria do Sistema Municipal de Bibliotecas da cidade de São Paulo.



FONTE: http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/180-artigos-de-genero/24005-eu-preta-pobre-e-crackeira-por-priscila-tamis