quinta-feira, 8 de setembro de 2016

DEXTER - Flor de Lótus

São João Del-Rei recupera bordados de João Cândido, líder da Revolta da Chibata

O marinheiro João Cândido, protagonista de um movimento que amedrontou toda a cidade do Rio de Janeiro em 1910, tinha o hábito de bordar. A evidência concreta está em São João Del-Rei (MG), onde se encontram duas toalhas bordadas pelo líder da Revolta da Chibata. Elas fazem parte do acervo do Museu Tomé Portes Del-Rei, que estava desativado e será reaberto ao público.

Segundo o novo secretário de cultura de São João Del-Rei, Pedro Leão, os bordados se constituem como um documento histórico para compreender o período e enriquecem o patrimônio artístico da cidade. Ele conta que as obras foram encontradas no dia 2 de janeiro. "Elas estavam em uma sala úmida, sem o menor cuidado de preservação, juntamente com outras telas e fotografias. Imediatamente foi feito o translado pra uma sala maior, mais arejada e limpa. Também já contratamos um técnico que será responsável pela higienização e restauração do acervo", explicou Pedro Leão.
João Cândido liderou a Revolta da Chibata entre os dias 23 e 26 de novembro de 1910. Indignados contra o uso da chibata e outras práticas humilhantes da Marinha brasileira, os marinheiros assumiram o controle de quatro embarcações. Entre elas, estavam os encouraçados recém-incorporados São Paulo e Minas Gerais, que possuíam 84 canhões e figuravam entre os mais poderosos do mundo, com um poder de fogo que poderia causar sérios estragos na cidade.
O clima tenso que tomou conta do Rio de Janeiro se agravou ainda mais com alguns disparos esparsos, em direção a navios e fortalezas. Apesar do acordo com o governo, que incluía a anistia aos rebelados, os marinheiros permaneceram presos por muito tempo e João Cândido foi expulso da Marinha.
Restauração
A restauração de todo o acervo é parte do projeto inscrito pelo município no PAC das Cidades Históricas, programa governamental coordenado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). São João Del-Rei apresentou uma demanda de R$19 milhões para a recuperação de todo seu patrimônio histórico e cultural.
"Uma vez aprovado o projeto, nós acreditamos que o museu será reaberto num prazo de 3 anos. São mais ou menos 800 obras. Talvez o restauro de algumas delas pode demorar mais. É necessário um conhecimento técnico para dar uma estimativa mais exata", diz Pedro Leão. Ele conta que também está sendo elaborado o Blog do Acervo, que conterá informações históricas da obras.

O secretário ressalta que, embora algumas obras tenham sido perdidas devido à deterioração, os bordados de João Cândido encontram-se em bom estado. "Um deles apresenta uma mancha, talvez proveniente da umidade ao qual eles estavam expostos. Mas acredito que ela será removida", disse.
FONTE:http://www.ebc.com.br/cultura/2013/04/sao-joao-del-rei-recupera-bordados-de-joao-candido-lider-da-revolta-da-chibata

GUCCI MANE ANUNCIA O RETORNO DO OUTKAST

Senhoras e senhores, preparem vossos corações!
Gucci Mane tem trabalhado bastante desde que saiu da prisão, afinal, tem lançado inúmeras colaborações nos últimos tempos. E seguindo nesta mesma pegada de colaborações, ontem o rapper trouxe, via Snapchat, alguns nomes do qual tem trabalhado, e surpreendentemente ele revela a seguinte colaboração:

“I just did a record for Outkast.”
“Eu fiz uma gravação para o Outkast.”
Isso mesmo! Gucci Mane disse que está trabalhando com o Outkast. Já faz um bom tempo desde que o duo desapareceu, literalmente, do meio musical. Mas esta notícia nos anima bastante e com certeza ouviremos um dos maiores grupos de rap em ação novamente…Será apenas um single ou álbum?
Fiquem ligado, pois traremos todas as novidades.
FONTE:http://thehypebr.com/2016/09/06/gucci-mane-revela-o-retorno-do-outkast/

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Após single com Ayó da Poet, F. Costa anuncia o lançamento da mixtape “Faces” em setembro

O rap nacional teve mais uma interessante conexão com artistas estrangeiros. Ayó Da Poet, da Nigéria, pulou na track do brasileiro F.Costa, de Florianópolis (SC). O single Faces  também dá o nome à mixtape do artista catarinense, que planeja lançar o projeto no final de setembro. Composta por um verso em português e outro em inglês, a música teve instrumental produzido por Paks, através do sample de Baltimore, da grande Nina Simone.


FONTE:https://raplogia.com/2016/08/30/apos-single-com-ayo-da-poet-f-costa-anuncia-o-lancamento-da-mixtape-faces-em-setembro/

Como quatro mulheres transformaram um caso de racismo em um movimento na internet

A partir de um vídeo que viralizou, elas criaram o canal “Estaremos Lá” para falar de inclusão e diálogo.

Depois de passar por um episódio de racismo em um shopping de São Paulo, quatro mulheres fizeram um vídeo que já está com mais de um milhão de visualizações. Agora elas querem aproveitar a visibilidade para tentar mudar a cabeça das pessoas.

Na praça de alimentação do shopping, uma senhora branca derrubou sua bandeja e, quando elas se ofereceram para ajudar a recolher, ouviram de volta um “não preciso de ajuda, só preciso que você limpe aqui”. Aí elas correram para o banheiro, não para chorar mas para gravar este vídeo bem engraçado, com direito a imitação da tal senhora.

O vídeo termina com uma frase que virou hashtag e o nome da página das meninas: “estaremos lá”.


Em entrevista ao BuzzFeed Brasil, Stella, Bia, Carol e Samantha contam que fizeram o vídeo apenas para desabafar sobre o fato com seu círculo de conhecidos. No dia em que o caso do shopping aconteceu, Stella havia recém ajudado o irmão de 15 a lidar com algo parecido, pois ele havia sido expulso sem razão de uma loja.


Elas contam que postaram o vídeo no sábado de manhã e que ao meio-dia ele já tinha mais de mil visualizações e logo começaram a ligar umas para a outras.
“Acredito que o crucial do vídeo, além de abordar o tema do racismo, é o jeito que falamos sobre isso, com leveza e humor”, diz Carol. “Porque aquilo não foi um caso isolado, e nossa reação não foi ensaiada para o vídeo, mas é como a gente lida com as situações do nosso dia a dia, e foi isso que fez as pessoas se identificarem”.

“Eu não tive vontade de destratar a pessoa, tive vontade de entender”, conta Stella. “Queremos falar com quem reage assim e perguntar ‘por que sua cabeça é assim? Você tem vontade de mudar? Vamos conversar!’”, dizem Bia e Samantha.


As quatro meninas estão animadas com a repercussão e querem continuar abordando temas como inclusão social e diálogo entre pessoas que pensam diferente, tentando mudar formas de ver o mundo.
“Não é vitimismo, não é mimimi. Se a gente for passar textão ou dar o troco para cada opressor que a gente encontrar, vamos passar a vida fazendo isso. A gente quer criar empatia, mostrar que as coisas podem não ser como você pensa”, diz Stella.

Por causa do vídeo, foram convidadas para um encontro de influenciadores digitais negros na casa da consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, e já aproveitaram para fazer mais um vídeo no banheiro com participação especial da própria.

“A gente estava lá como influenciadoras digitais e nem tínhamos canal ainda!”, dizem as meninas. Elas também fizeram uma transmissão no Canal das Bee, com quem vão continuar colaborando.

Foram tantas as mensagens e os comentários pedindo por mais vídeos que as quatro meninas, que se conhecem há cinco anos por frequentar a mesma igreja, decidiram criar um canal no YouTube e uma página no Facebook.


“Você não imagina quantas pessoas entraram em contato com a gente relatando casos parecidos, até de negros cujas próprias famílias não querem que eles usem tranças ou cabelo black. A internet chegou para que todos possam ter mais referências, porque para nós tem as negras globais, a Beyoncé, ou nada. A gente quer ser uma referência gente como a gente, igual às pessoas que nos seguem”, explica Stella sobre o que o grupo quer fazer com os canais.

FONTE:https://www.buzzfeed.com/susanacristalli/como-quatro-mulheres-transformaram-um-caso-de-racismo-em-um?utm_term=.oeoQ1OLLGJ&bffbbrazil#.jmBm5JAAb3

Postagem de juíza crítica à meritocracia viraliza nas redes sociais

A "meritocracia" é o processo de alavancamento profissional e social como consequência dos méritos individuais de cada pessoa, ou seja, dos seus esforços e dedicações. Quem defende a teoria da meritocracia, acredita que qualquer pessoa possa chegar onde quiser apenas através do seu esforço. De outro lado, muitas pessoas criticam essa ideia, principalmente em um país cuja sociedade é desigual, racista, machista, homofóbica.
A juíza de direito do Tribunal de Justiça do Paraná, e colunista do Justificando, Fernanda Orsomarzo, escreveu um post no seu Facebook contando sua história de muito esforço, porém também de muito privilégio, para afastar a ideia de meritocracia. O post já passa de 25 mil curtidas e oito mil corpartilhamentos.
Fernanda se classifica como branca e parte de uma família classe média, o que a possibilitou de frequentar boas escolas, cursinhos e universidades. "Todos têm suas lutas e histórias de vida. Todos enfrentam dificuldades e desafios. Porém, enquanto para alguns esses entraves não passam de meras pedras no caminho, para outros a vida em si é uma pedra no caminho", afirmou. 
A juíza se considera uma pessoa previlegiada desde que nasceu, o que fez com que ela saísse na frente de todos os outros que tentam chegar ate o seu cargo. "Não é justo, não é honesto exigir que um garoto que sequer tem professores pagos pelo Estado entre nessa competição em iguais condições. Nunca, jamais estivemos em iguais condições", disse.
O discurso da meritocracia, para Fernanda,  desresponsabiliza o Estado e joga nos ombros do indivíduo todo o peso de sua omissão e da falta de políticas públicas. "A meritocracia naturaliza a pobreza, encara com normalidade a desigualdade social e produz esquecimento – quem defende essa falácia não se recorda que contou com inúmeros auxílios para chegar onde chegou", concluiu.
Leia o post na íntegra:

FONTE:http://www.justificando.com/2016/08/31/postagem-de-juiza-critica-a-meritocracia-viraliza-nas-redes-sociais/

terça-feira, 30 de agosto de 2016

DE LA SOUL VOLTA COM NOVO ÁLBUM E SHOWS NO BRASIL

O trio, há 12 anos sem lançamentos, gravou "and the Anonymous Nobody..." através de financiamento coletivo - e já está trazendo a tour pra cá!


Um novo disco do De La Soul é muito mais do que um lançamento legal. É um acontecimento! O trio, responsável por um dos álbuns mais inovadores do hip-hop, o maravilhoso "The Grind Date" (2004), está de volta com "and the Anonymous Nobody...", outra pedrada pro currículo deles, e já tem tour marcada... no Brasil!
O nono álbum de estúdio do trio nasceu de um financiamento coletivo na plataforma Kickstarter, através do qual eles arrecadaram mais de 600 mil dólares pra tirar o disquinho do papel. Nada mal!

E é claro que a galera ia contribuir, né? Depois de 12 (isso mesmo, DOZE) anos sem lançar um projeto de inéditas, Posdnuos, Dave e Maseo reuniram swag, ritmos, estilos e muito alto astral num álbum leve, inteligente, orgânico - em outras palavras, de-li-ci-o-so.

O grupo é conhecido pelo uso de samples ecléticos (A.K.A. diferentões), letras peculiares e aquele mix gostoso de hip-hop com outros gêneros. Até dá pra identificar essas características hoje no som de rappers como Kendrick Lamar e Kanye West o tempo todo, mas alguém teve que criar essa escola aí, né?! 

Aliás, o que não falta é artista cheio de talento nesse álbum! Snoop Dogg, Damon Albarn, David Byrne, Usher, Justin Hawkins, Little Dragon e 2 Chainz são apenas alguns dos nomes de peso que gravaram esse tiro com o grupo.

Para a nooossa alegria, as boas notícias sobre o De La Soul não acabaram aí! Os mestres novaiorquinos vão trazer a tour do "and the Anonymous Nobody..." pro Brasil daqui a pouquiiinho tempo. Eles confirmaram apresentações nos dia 3 e 4 de novembro em BH e no Rio, respectivamente.

Ei, espera! Antes de correr pra comprar o seu ingresso, que tal ir entrando no clima do show imperdível curtindo o som dos caras? Coloca a playlist do Tenho Mais Discos pra tocar e, aí sim, pode clicar aqui ou aqui e garantir sua presença nesses shows ouvindo a melhor trilha!
FONTE:http://topsify.com.br/noticias/de-la-soul-volta-com-novo-album-e-shows-no-brasil

NEGROCRACIA

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Acordo pela paz entre PCC e Comando Vermelho derruba homicídios em Fortaleza

Facções dominam periferias de uma das capitais mais violentas do Brasil e proíbem ciclo de vingança das gangues locais

Crianças brincam em praia no Pirambu. Ao fundo, pichação do Comando Vermelho. 

O relógio marca pouco mais de 20h de uma noite abafada de agosto no Jangurussu, periferia de Fortaleza. Em outros tempos, Rodrigo de Araújo, 19, se obrigaria a caminhar pelas vielas escuras de terra, onde o esgoto ainda corre solto pelo meio da rua, em nível máximo de alerta, atento a cada sombra e movimento nas esquinas. O bairro faz parte da região conhecida como Grande Messejana, historicamente uma das mais violentas da capital cearense. No entanto, hoje o jovem anda despreocupado: Aqui tá tudo em paz. Fortaleza toda, Ceará todo, tudo pacificado”. Há cerca de seis meses seus moradores sentem na pele os efeitos do que ficou popularmente conhecido como a “pacificação”. O grande responsável por esse processo, no entanto, não foi o Estado. A paz que hoje vigora em quase todas as periferias de Fortaleza é obra do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), facções criminosas surgidas em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente.

Araújo comemora a recém-conquistada liberdade de ir e vir em seu próprio bairro. “Antes eu não podia atravessar aqui. Quando precisava cruzar o Jangurussu, ia com o coração na boca”, afirma. “Hoje eu ando por qualquer canto”. Até o poder das facções do Sudeste ter se imposto, o bairro era dividido em setores que eram controlados por gangues rivais ligadas a torcidas organizadas de futebol. A Movimento Organizado Força Independente, do Ceará, e a Torcida Organizada Jovem Garra Tricolor, do Fortaleza, são dois dos maiores exemplos deste fenômeno. Elas controlavam o tráfico de drogas no local e atacavam umas às outras, deixando uma pilha de cadáveres. Com a chegada do CV e do PCC, assaltos no bairro foram proibidos, e o ciclo de vinganças provocado pelas gangues foi interrompido. Homicídios, que eram parte do cotidiano, aos poucos se tornam uma lembrança, ainda que não tão distante.
Seria ingênuo, no entanto, acreditar que essa paz é fruto de algum humanismo por parte das facções. A ideia é reproduzir o modelo empresarial adotado pelo PCC em São Paulo, deixando antigas desavenças de lado e focando no comércio da droga e no enfrentamento à polícia. A lógica é simples: homicídios chamam a atenção das autoridades, e roubos geram mal-estar na comunidade, incentivando que os moradores delatem os traficantes que não conseguem "manter a ordem".
S. L. D, de 21 anos, é um dos líderes do PCC no Jangurussu. Por razões óbvias ele não quis divulgar o nome. Entrou em contato com os criminosos do Sudeste enquanto cumpria pena de oito meses de prisão na Casa de Privação Provisória de Liberdade Professor Clodoaldo Pinho, conhecida como CPPL II, uma das mais críticas do sistema penitenciário. “Essa paz chegou em todas as comunidades, cada quebrada tem pelo menos um irmão [nome usado pelos integrantes da facção para se referir aos colegas do crime]”, afirma. De acordo com ele, não houve resistência por parte das gangues e torcidas com relação à chegada do PCC e do CV no Estado, uma vez que a nova ordem potencializou os ganhos do tráfico, sendo benéfica para todos. Ele estima que os pontos de venda de droga de seu setor movimentam cerca de meio milhão de reais por mês. Crack e cocaína são os carros-chefes do negócio.
Moradora do Pirambu descansa ao lado de pichação do PCC. 
“Hoje em dia ninguém mais toma atitudes isoladas, não se pode quebrar a paz. Aqui não se tira mais uma vida à toa, nem em caso de dívida de droga”, diz o traficante. Os responsáveis pelos pontos de venda foram orientados a não fazer fiado em seus negócios: a prática de esperar pelo pagamento futuro da droga frequentemente levava à execução do usuário que não saldou a dívida. S. L. D já se acostumou com o papel de mediador de conflitos no bairro. De brigas de faca, homens traídos em busca de vingança, calotes, antigos rivais de gangue, tudo o que poderia acabar em morte agora é arbitrado pelas facções. O modelo que ficou conhecido como o tribunal do crime, vigente nas periferias de São Paulo, também foi implementado em Fortaleza. Eventuais queixas são levadas às lideranças do tráfico – muitas vezes dentro das cadeias -, e só então uma sentença é proferida. A morte é o último recurso.
O morador do Pirambu, bairro localizado na costa leste de Fortaleza, literalmente à beira mar, se acostumou a conviver com o estigma da região. Afinal, trata-se de uma das maiores favelas do Brasil, com cerca de 250.000 habitantes. E também era uma das mais violentas. A má fama do local é evidenciada na fala de Airton Barreto, 65, que se mudou para lá na adolescência. “Eu costumava dizer que morava no ‘vish’. Porque era só falar o nome Pirambu que as pessoas falavam ‘vish’ em tom pejorativo”, diz. Lá, a paz chegou mais cedo do que no Jangurussu. Desde o início do ano passado as facções pacificaram a região. Nos muros, pichações com os dizeres “quem roubar morador morre” lembram a todos da nova ordem em vigor. Além disso, o tráfico usou as redes sociais para disseminar a mensagem, e em alguns locais até colou cartazes explicando a nova ordem vigente: "Quem roubar morador morre".
Airton Barreto, que critica a ausência do
Estado no Pirambu. 
“É uma paz diferente”, diz Airton Barreto, um dos moradores mais antigos de Pirambu. “Existem vários tipos de paz: a paz de cemitério, a paz fruto da justiça e a paz dos justiceiros”, afirma, dando a entender que o a realidade do local é do último tipo. “Hoje você pode ir a qualquer rua, entrar em qualquer viela, sem medo de ser assaltado ou morto”, diz. Para ele, as facções só conseguiram se impor porque o Estado falhou. “Não existem políticas públicas efetivas nas periferias. E o Governo é ausente, abrindo caminho para que o crime se imponha”, critica.
Apesar de recente, essa nova ordem nas periferias do Estado é apontada por especialistas e por moradores como responsável pela queda dos homicídios tanto no Ceará quanto na capital. Em Fortaleza, comparando-se os sete primeiros meses de 2015 com o mesmo período do ano seguinte, houve redução de 37,6% no número de crimes dessa natureza: de 948 mortos no ano passado para 591 em 2016. No Estado a redução foi menor, mas significativa: 12%. De 2278 para 2000. Os números são da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará.
“Grande parte da redução dos homicídios aqui se deve a esse impacto [das facções]”, afirma Luiz Fábio Paiva, professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência. De acordo com ele, essa queda “não é algo que tem a ver com novidades no campo da segurança pública, nada de novo tem sido feito na área que possa justificar os dados”. Segundo o professor, “não é possível precisar a porcentagem de favelas pacificadas, mas escutamos relatos de todas as áreas da cidade de Fortaleza”.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social afirma que “os resultados obtidos com a diminuição dos crimes letais são consequência de um trabalho que vem sendo desenvolvido e aperfeiçoado desde janeiro de 2014” pelo Estado. De acordo com o texto, “qualquer outra suposta razão para esses resultados positivos (...) não condizem com a realidade”. A secretaria cita o Programa Em Defesa da Vida, que dividiu o Estado em áreas específicas de policiamento, com “metas de redução de crimes aferidas diariamente”, como um fator decisivo na redução. Além disso, a pasta destaca o trabalho integrado das diferentes forças policiais como uma das razões do sucesso no “combate à criminalidade”. De acordo com o secretário Delci Texeira, “novas ações já estão sendo idealizadas e pensadas para que possamos ter quedas ainda maiores em todos os índices de criminalidade”.
"Brugelo" Silva, baleado no pescoço, exibe cicatriz. Ao lado, buraco de disparo que matou um de seus amigos. 
A redução está longe de ser insignificante: no início deste ano Fortaleza apareceu como a cidade mais violenta do país no ranking divulgado pela ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal, com uma taxa de 60,6 homicídios por 100.000 habitantes – a 12ª mais violenta do mundo. A Organização das Nações Unidas considera epidêmicas taxas acima de 10 mortes. O estudo considerou apenas cidades com mais de 300.000 habitantes. Para efeitos de comparação, São Paulo tem uma taxa de 10,6 por 100.000, e o Rio 18,2. Os dados são de 2015, e a expectativa é que o Ceará apresente uma queda acentuada este ano.
Antônio Cirlanio Jorge da Silva, 23, conhecido no bairro como Bruguelo, sentiu na pele a lei do cão que vigorava antes da pacificação. Dois anos atrás o então gerente de um dos pontos de venda de droga do setor Estrela do Jangurussu foi visitar a namorada no setor vizinho, Palmeiras. Surpreendido por integrantes da gangue rival e mesmo armado, não conseguiu reagir a tempo: levou um tiro no pescoço, que errou a artéria carótida por milímetros. A bala destruiu uma de suas cordas vocais, e hoje o jovem fala com dificuldade. “Desde a pacificação decidi sair do crime. Para nós, a chegada das facções foi boa, hoje ando onde quero sem medo”, diz. Silva aponta qual o novo rumo dos conflitos no Estado: “Hoje a guerra é entre facção e polícia”.
A pacificação que vigora no local se faz sentir nos pequenos prazeres que os moradores aos poucos voltam a usufruir. “Quando eu vejo essa paz... Olha, antes eu não tinha prazer nenhum de ficar sentado na porta de casa conversando com os vizinhos numa noite fresca”, conta José Pereira, 65. “Hoje está uma calma, todo mundo anda sossegado. Antes não passava um dia em que não se falasse de um ou dois mortos no bairro. O pessoal até soltava fogos para comemorar a morte de um inimigo”.
"Se roubar cidadão na favela #vai pro saco!", diz pichação no Pirambu. 
O traficante J. R., 25, morava na zona leste de São Paulo até junho de 2015, quando um mandado de prisão por tráfico e assalto a mão armada fez com que ele se refugiasse no Pirambu. “Tenho orgulho de ter ajudado a construir essa paz aqui”, afirma. Integrante do PCC, ele explica como funciona o acordo entre as facções no local: “O CV tem muita arma, um estoque bom, então isso é com eles. E o PCC cuida de trazer a droga pra cá”, afirma. Quanto aos poucos bairros de Fortaleza que ainda resistem à nova ordem do crime, ele é taxativo. “Vai ser tudo derrubado já já. Porque agora eles [líderes de gangue que resistem ao acordo] tão na rua, e quem tá na rua faz o que quer. Agora quando for preso, lá dentro [da cadeia] é nóis, quando falar com os cabeção [líderes] não tem como fugir da ideia”, diz.
“Hoje dá até para sair de casa com tablete, notebook...”, brinca Gina Cláudia, 44, enquanto empurra o carrinho com sua filha Laura, de três anos, ladeira acima no Pirambu. “Antes eu evitava sair de casa de noite, e quando saia não levava nada, nem celular nem carteira”. Já Maria Ribeiro, 40, faz uma leitura mais ponderada do que está ocorrendo no local. “Está pacífico. Mas é difícil dizer que prefiro agora do que antes. Sabemos que qualquer vacilo é pago com a vida”, diz. Ela perdeu um irmão que era integrante de gangue para a violência em 1998. “Mas na verdade tenho mais medo da polícia do que de qualquer facção ou gangue aqui do bairro. Hoje em dia se você anda na linha, não tem que temer o crime”, afirma.
FONTE:http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/19/politica/1471617200_201985.html?id_externo_rsoc=FB_CC

MARIA DO CARMO | EMPODERADAS | SP

Nascida com no ano da Revolução de 1932, Maria do Carmo construiu sua trajetória e revolucionou. A menina que aprendeu a ler e escrever sozinha, tornou-se mãe de Jader e reitera inúmeras vezes "meu filho é maravilhoso", foi professora, policial civil e é advogada. "Pode me chamar de doutora", ao se apresentar Maria do Carmo mostra não ter receio de ser quem é. Foi atuando como ativista comunitária, que Maria do Carmo se deparou com a perversidade com a qual a pele negra sempre foi tratada, e em resposta ao mercado de cosméticos que sempre tratou a pele negra com descaso e irresponsabilidade, Maria do Carmo criou a Muene, primeira marca de maquiagem dedicada exclusivamente à pele negra. A loja no meio da Galeria, no Centro de São Paulo, é um oásis para auto-estima. Ninguém sai de lá sem passar um batom e ser tratada com carinho.
Equipe Técnica:
Renata Martins Direção, Roteiro e Edição. 
Mariane Nunes (Nuna) Direção de Fotografia. 
Maitê Freitas Dir. Produção e Som Direto. 
Pamella Aleixo Produção
alile dara onawale Still

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Garcia Gam. (Liberdade)

Como a Igreja arruinou a vida sexual das Américas com pecado, culpa e preconceito

“Não existe pecado do lado de baixo do Equador”, escreveu o holandês Gaspar Barleu ao se deparar com a libidinagem no Recife do século 17.
Por Cynara Menezes, do SOCIALISTA MORENA
Não EXISTIA. A liberdade sexual dos primeiros moradores do Brasil seria logo substituída pela noção de transgressão, pelo pudor excessivo, pelas proibições e pelo preconceito –a homofobia, por exemplo, nascia ali. Em que contribuíram os europeus para a sexualidade das Américas além de nos apresentar à culpa?
Tudo o que era possível trazer para cá, em termos sexuais, já era conhecido entre os nativos: homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, bigamia, poligamia. As posições também iam muito além do “papai-e-mamãe” no escuro e sob lençóis dos colonizadores: masturbação mútua, sexo anal, oral, grupal. Sexualmente falando, eram os indígenas os avançados e os homens brancos, os primitivos. Mas foi só chegar a igreja e pronto: a pretexto de civilizar-nos, destruíram milênios de conhecimento autóctone sobre a sexualidade.
As próprias narrativas dos primeiros cronistas são contaminadas pelo puritanismo da época. No México, Hernán Cortés escreveu: “fomos informados de que são todos sodomitas e usam aquele abominável pecado”. O tema da sexualidade, é claro, sofreu censura por parte dos colonizadores, e só recentemente historiadores e arqueólogos têm apresentado descobertas neste campo. Cortés estava bem informado: entre os maias, a homossexualidade era frequente, e uma espécie de rito de passagem da infância para a adolescência (como ocorre, aliás, com tantos homens e mulheres, de forma velada, em todos os tempos).
“Viam no prazer sexual um dom divino, equiparável ao alimento, à alegria, ao vigor vital e ao repouso cotidiano. Era questão de moderar o desfrute daquele presente, como se fazia com qualquer outro bem concedido pelos deuses”, escreveu o antropólogo Alfredo López Austin em um dos artigos da edição especial da revistaArqueologia Mexicana sobre sexualidade entre os maias, em 2010.
A masturbação ritual era praticada por muitos indígenas da América Central como uma maneira de fecundar a terra, considerada “feminina”. As carícias mútuas faziam parte do coito: o homem tocava as partes íntimas da mulher e a mulher tocava o homem. Moderno, não? Tem gente que não faz isso até hoje…
Tudo isso foi documentado em esculturas em pedra e cerâmica que ficaram escondidas, trancafiadas em salas de museu até a metade do século 20. Uma mostra de arte erótica pré-colombiana organizada no México em 1926 foi relegada a um salão secreto durante décadas. Em Uxmal e Chichen Itzá há esculturas dedicadas ao órgão sexual masculino, cujo significado ainda permanece um mistério. Supõe-se que os falos gigantescos simbolizavam a fertilidade e eram objeto de culto.



No Peru, só em 1957 foi aberta a sala onde ficavam escondidas as cerâmicas eróticas pré-colombianas do Museu Nacional de Antropologia. Veio a público então uma impressionante série de cerâmicas da cultura mochica, anterior aos incas, representando atos sexuais de forma explícita, em posições que fariam corar ainda hoje em dia algumas senhoras de Santana da renascida direita tupiniquim. Algumas delas podem ser apreciadas no Museu Larco, em Lima.
(Cerâmicas do museu Larco, em Lima: sexo oral…)

(…69…)
(…masturbação mútua – reparem na carinha deles -…)

 
(…e sexo anal)

 Na América protestante a repressão não foi diferente. Muito igualitária, a sociedade Cherokee dava às mulheres postos semelhantes aos dos homens; elas podiam integrar o conselho da tribo e ser guerreiras. O adultério era permitido a ambos os sexos, sem punição, assim como o divórcio: bastava a mulher colocar os pertences do homem para fora da casa.

Havia ainda os transgêneros, encontrados em mais de 150 tribos norte-americanas. Chamados de Two-Spirit (“dois espíritos”) ou “berdaches”, eram homens que gostavam de estar entre as mulheres, fazer as coisas que elas faziam e vestir-se como elas. Ou o contrário: mulheres que gostavam de se vestir como homens. Os primeiros relatos de colonizadores sobre os Two-Spirit aparecem já no século 16. O preconceito contra eles só vai surgir mais tarde, por influência do homem branco. A partir daí, eles passam a ser rejeitados por suas tribos e são marginalizados.
(We-Wa, uma “dois espíritos” do povo Zuni, do Novo México, EUA, em 1907. Foto: John K. Hillers)
  Na América católica, a “Santa” Inquisição foi convocada para reprimir sexualmente os nativos, coibindo “delitos” como a bigamia ou a sodomia, embora fossem práticas permitidas em algumas culturas indígenas. No México, conta-se do índio Ángel Porecu, de Michoacán, punido por bigamia com cem chibatadas. No Brasil, um projeto da Universidade Federal do Pará rastreou os casos de naturais da Amazônia, entre eles indígenas, enviados aos tribunais do “Santo” Ofício em Lisboa por “crimes” similares.


Foi o caso da índia Florência Perpétua, de 28 anos, acusada de bigamia em 1766, levada a Portugal e condenada à prisão, após a qual foi solta e admoestada a viver com o primeiro marido. A sodomia (prática de sexo anal) também era razão para julgamento e punição pela Inquisição, mas apenas a masculina. “A sodomia feminina não era alvo da Inquisição porque não havia o derramamento de sêmen, considerado pecado. A masculina era considerada bestialismo”, explica o historiador Antonio Otaviano Vieira Jr., coordenador do trabalho.
(Tribunal da Inquisição no México)

(Tribunal da Inquisição no México)
A ordem era vestir as índias, cobrir o que foi olhado com tanto espanto e deleite pelos primeiros exploradores. “Desde o início da colonização lutou-se contra a nudez e aquilo que ela simbolizava. Os padres jesuítas, por exemplo, mandavam buscar tecidos de algodão, em Portugal, para vestir as crianças indígenas que frequentavam suas escolas. ‘Mandem pano para que se vistam’, pedia padre Manuel da Nóbrega em carta a seus superiores”, escreve Mary del Priore no livroHistórias Íntimas. “Aos olhos dos colonizadores, a nudez do índio era semelhante à dos animais; afinal, como as bestas, ele não tinha vergonha ou pudor natural. Vesti-lo era afastá-lo do mal e do pecado. O corpo nu era concebido como foco de problemas duramente combatidos pela Igreja nesses tempos: a luxúria, a lascívia, os pecados da carne. Afinal, como se queixava padre Anchieta, as indígenas não se negavam a ninguém.”
Enquanto fora de casa o homem se divertia, dentro do casamento era um pudor só. “Até para ter relações sexuais as pessoas não se despiam. As mulheres levantavam as saias ou as camisas e os homens abaixavam as calças e ceroulas. Mesmo nos processos de sedução e defloramento que guardam nossos arquivos, vê-se que os amantes não tiravam a roupa durante o ato”, lembra Mary.
A sexualidade dos índios no Brasil é ainda hoje pouco estudada. Há alguns relatos de cronistas, como o de Gabriel Soares de Sousa entre os tupinambás, na calienteBahia do século 16. “São os tupinambás tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam”, escreve Gabriel no Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Segundo ele, os índios não só transavam muito como gostavam, homens e mulheres, de falar sobre sexo desavergonhadamente.
Havia homossexualidade e o adultério era permitido também às mulheres, que seduziam amigas para o leito conjugal. “As que querem bem aos maridos, pelos contentarem, buscam-lhes moças com que eles se desenfadem, as quais lhe levam à rede onde dormem, onde lhes pedem muito que se queira deitar com os maridos, e as peitam para isso; cousa que não faz nenhuma nação de gente, senão estes bárbaros”, constata, não sem uma pontinha de inveja, nosso cronista.
As mulheres mais velhas, por sua vez, “desestimadas dos homens”, tratavam de iniciar sexualmente os meninos: “ensinam-lhes a fazer o que eles não sabem”. E os insatisfeitos com o tamanho do membro nada de novo sob o sol“costumam pôr o pelo de um bicho tão peçonhento, que lho faz logo inchar, com o que têm grandes dores, mais de seis meses, que se lhe vão gastando por espaço de tempo; com o que se lhe faz o seu cano tão disforme de grosso que os não podem as mulheres esperar”.
“O esforço no sentido de fazer prosperar na colônia estrita monogamia teve que ser tremendo”, escreveu Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala. O pernambucano, que assumia com tranquilidade suas experiências homossexuais na juventude, prestou atenção nas práticas entre o mesmo sexo e na bissexualidade, que não eram incomuns entre os indígenas brasileiros e tampouco eram práticas condenadas. Pelo contrário, os homossexuais eram bem-vistos e tinham relevância na comunidade. Freyre supõe que a função de curandeiro das tribos, não só brasileiras como as demais do continente, fosse destinada aos gays. Também se afirma isso sobre os Two-Spirit, que seriam os xamãs da América do Norte.

(O Feiticeiro, gravura de John White, em 1585, na cidade indígena de Pomeiooc, atual Carolina do Norte, EUA)

“Quanto aos pajés, é provável que fossem daquele tipo de homens efeminados ou invertidos que a maior parte dos indígenas da América antes respeitavam e temiam do que desprezavam ou abominavam”, defende Freyre. “Uns, efeminados pela idade avançada, que tende a masculinizar certas mulheres e a efeminar certos homens; outros, talvez, por perversão congênita ou adquirida. A verdade é que para as mãos de indivíduos bissexuais ou bissexualizados pela idade resvalavam em geral os poderes e funções de místicos, de curandeiros, pajés, conselheiros, entre várias tribos americanas.”
Entrevistei o antropólogo Estevão Fernandes, professor da Universidade de Rondônia, que estuda a homossexualidade indígena.
Socialista Morena – Era frequente a homossexualidade entre os índios brasileiros? Ou depende da etnia?
Estevão Fernandes – Não apenas “era”, como é, algo normal. Um grande desafio no tocante aos indígenas homossexuais em várias terras indígenas do País é o de romperem com uma imagem que se tem, no Brasil, de que os povos indígenas sejam coletividades paradas no tempo. Isso faz com que indígenas cujas sexualidades não se enquadram no modelo hegemônico sejam vistos como “perdendo sua cultura” ou “gays por causa do contato com os brancos”, gerando preconceito, inclusive, em suas próprias aldeias –muitas vezes devido ao contato com os não-índios, com igrejas diversas, por meio da mídia. A perspectiva de que estas sexualidades eram abjetas chegou com a colonização, com a imposição de padrões ocidentais de sexo, gênero, família, pela necessidade do colonizador de se organizar o trabalho, o espaço e o tempo nas aldeias. Assim, os homens deveriam se vestir como homens, trabalhar onde os homens trabalham, ter nome de homem, e se comportar como os homens se comportam; idem com relação às mulheres. Os indígenas que não se enquadravam nesta perspectiva (r)estrita de dimorfismo sexual e heteronormatividade eram castigados –há relatos, por exemplo, de execuções, cortes de cabelo forçados, castigos físicos, etc., levados a cabo pelos colonizadores, não pelos indígenas. Neste sentido, a heteronormatividade e o preconceito são parte integrante da colonização, mas não das formas pelas quais os indígenas lidavam com essas práticas. Temos fontes que situam práticas queer entre povos indígenas no Brasil desde, pelo menos, meados do século XVI e em diversas etnias e povos indígenas do país, sem que houvesse qualquer tipo de preconceito ou exclusão destes indivíduos em suas aldeias.
– Só há relatos de homossexualidade masculina ou feminina também?
– Tanto uma quanto outra (ainda que as fontes sejam mais frequentes no tocante ao sexo entre homens, reflexo da perspectiva viricentrada e patriarcal quase sempre assumida pelos observadores).
– Gilberto Freyre propõe que muitos dos pajés eram homossexuais. Será verdade?
– No Brasil há poucos dados sobre isso, ainda que existam. Isto talvez explique a perseguição que os homo e bissexuais sofreram ao longo da colonização. Há vários relatos na literatura que nos permitem afirmar que havia (e talvez ainda haja), entre povos ameríndios, o ponto de vista que relaciona homo/bi/transexualidade ao potencial sagrado, como mostram os Two-Spirit nos Estados Unidos e Canadá. Também há o caso dxs Muxes, no México, que apontam não apenas para esse importante papel religioso, mas também político e social desempenhado por esses indivíduos.
– A sexualidade indígena é um assunto muito pouco estudado no Brasil. Por quê? Qual a principal dificuldade em pesquisar este campo?
– Ainda é, embora venham surgindo boas pesquisas a este respeito. Uma das hipóteses é, talvez, a própria resistência que algumas lideranças indígenas têm em tocar no assunto, por temerem o preconceito em relação às suas comunidades… Outra é a relativamente pouca penetração de ideias como as teorias queer na academia brasileira. Neste sentido, um grande desafio é trazer o queer para uma discussão mais próxima da etnologia indígena e da crítica às práticas coloniais, administrativas e políticas empregadas junto aos povos indígenas. Por outro lado, fico feliz em ver que alguns e algumas indígenas já se mobilizam em suas comunidades para pensar estas questões, inclusive trazendo estas reflexões para a própria academia –um exemplo é o texto Sexual Modernity in Amazonia, escrito em coautoria com uma indígena Tikuna, aluna da UFAM (Universidade Federal do Amazonas).
– Os relatos dos primeiros cronistas sobre sexualidade eram sempre permeados de julgamentos e preconceitos. Há alguma exceção? Algum cronista foi mais, digamos, permissivo?
– Até onde pude observar, não há exceções… Quase sempre o enquadramento a partir do qual a sexualidade indígena é vista reflete as perspectivas e preconceitos do observador… No tocante aos missionários e cronistas é ainda mais evidente como a sexualidade era vista, junto com a poligamia e a antropofagia, como prova da necessidade de se converter –quase sempre pelo uso do medo– os indígenas.
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Talvez a própria imagem do indígena como “inocente” ou “assexuado” tenha sido útil à Igreja para disseminar suas teorias sobre céu e inferno. A analogia com Adão e Eva era perfeita: nus, no “Paraíso”, os “inocentes” foram tentados pela serpente do “pecado”. Era preciso fazê-los sentir-se mal em relação a algo natural e convertê-los à “fé”. E assim morria, no “descobrimento”, a genuína sexualidade das Américas. Mas o pecado, Barleu tinha razão, não está mesmo em nosso DNA.
FONTE:http://www.geledes.org.br/como-igreja-arruinou-vida-sexual-das-americas-com-pecado-culpa-e-preconceito/#ixzz4IIShAe00