quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Presidente negro: Joaquim Barbosa e MV Bill têm a maior intenção de votos entre afrodescendentes

2018 é ano de eleição e nunca o cenário político, pós Diretas, foi tão nebuloso. Assim como a maioria da nação, o eleitor afro-brasileiro  não se identifica com nenhum partido ou candidato. A constatação veio de uma pesquisa realizada pelo painel B4B – BAP for Businessempresa especializada em pesquisas de consumo com foco na população negra,  que entrevistou 1067 afrodescendentes da cidade de São Paulo, durante 10 dias no mês de novembro.
30% dos pesquisados não se sentem representados por nenhum candidato, mas o que se sentem,  citaram Leci Brandão (7%), Jean Wyllis (4%), Márcio Black (4%) e Douglas Belchior (3%) como seus favoritos.
Quando apresentados para políticos negros mais conhecidos, Marina Silva, foi reconhecida por 80% dos pesquisados e a menos reconhecida foi Lidece da Mata, lembrada apenas por 9,4%. Fernando Holliday também aparece nessa pesquisa, sendo reconhecido por 38,8% dos pesquisados, um pouco mais que Paulo Paim (35,6%).
Entre os possíveis candidatos à presidência, brancos e negros, incluindo Lula , Bolsonaro, Maria Silva, Joaquim Barbosa e MV Bill são os candidatos preferidos, com 45% e 35% das intenções de votos, respectivamente.
Celebridades negras candidatas 
“São muitos dados, mas é interessante ver como no Brasil a situação política não se resolve apenas em direita e esquerda e dentro da comunidade preta isso não é diferente. Se por um lado muitas pessoas se afirmaram como de esquerda, há uma certa dissonância quando se faz o cruzamento com os candidatos e os partidos que representam essas pessoas. Foi possível perceber que o voto está mais ligado à personalidade e plataforma política do que com partidos e ideologia”, explica Luanna Teofillo, fundadora do Painel BAP.
De acordo com a empresária, ficou evidente a falta de esperança no sistema político e a falta de representatividade. “Como as pessoas não se sentem representadas pelos políticos, muitas citaram artistas, personalidades , intelectuais, ou seja, vemos que a atuação política muitas vezes é identificada fora do sistema político”, esclarece.
Douglas Belchior que aparece na pesquisa, vê essa presença de celebridades negras no cenário político como uma estratégia dos partidos. “Ano que vem vai ser um ano que se terá muitas candidaturas de figuras públicas negras em diversos partidos, da esquerda à direita porque dá retorno eleitoral. Porém não basta ser preto é preciso que haja um vínculo com as pautas negras”.
Ainda de acordo com Belchior o “voto racial”, juntará coeficiente que ajudará a eleger os “brancos de sempre” ou eleger candidatos negros que não estão preocupados com as causas negras.
FONTE:https://mundonegro.inf.br/presidente-negro-joaquim-barbosa-e-mv-bill-tem-maior-intencao-de-votos-entre-afrodescendentes/

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SOFRI PRECONCEITO EM PORTUGAL

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Casal RESPONDE - Débora Luz

Em busca da vida perfeita l Débora Luz

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Eduardo Taddeo - Sociedade dos Homens Invisíveis

O lucrativo negócio de empregar presos de graça ou pagando menos do que a lei determina. Segundo relatório, 75% dos detentos que trabalham recebem menos do que o valor previsto em lei.

Detento trabalha na fabricação de bolas de futebol em MG.

O Brasil tem milhares de presos trabalhando de graça para empresas e órgãos governamentais, que, por fora da lei, se beneficiam desta mão de obra vulnerável para baratear seus custos. Outras companhias pagam aos detentos um valor muito abaixo do que prevê a legislação. É um lucrativo e obscuro negócio que ocorre atrás das grades das penitenciárias do país que tem a terceira maior população carcerária do mundo, com 726.712 detentos. As companhias dos setores público e privado firmam acordos com os Estados para explorar a mão de obra dos internos: o regime de trabalho dos presos não é regulado pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), e sim pela Lei de Execuções Penais, que prevê uma remuneração de ao menos três quartos do salário mínimo - ou seja, um piso de cerca de 702 reais. Mas para muitos encarcerados que trabalham, este valor, ainda que baixo, é um sonho. Outros não veem a cor do dinheiro. Dos 95.919 detentos que são empregados dentro do sistema penitenciário, 33% (ou 31.653 pessoas) não recebem nada, trabalham de graça.

Além dos que trabalham sem remuneração dentro dos presídios, outros 39.326 detentos que estão empregados recebem valores abaixo dos 702 reais exigidos pela LEP. No total, 75% dos internos que exercem alguma atividade no cárcere recebem menos do que o exigido por lei. Os dados constam em um relatório do Ministério da Justiça intitulado Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, publicado no início de dezembro e feito com dados de 2016. Todos os presos que trabalham contam com o benefício da remição de pena por dias de atividade – cada três dias de trabalho abatem um dia no cumprimento da sentença.
O artigo 29 da LEP diz que “o trabalho do preso será remunerado, mediante prévia tabela, não podendo ser inferior a três quartos do salário mínimo”. Além disso, o empregador não precisa arcar com nenhum encargo trabalhista ao utilizar o serviços de um preso. Mas na prática, além do fato de existirem poucas oportunidades de trabalho no cárcere (apenas 15% dos detentos brasileiros trabalham), quando estas vagas existem, são predominantemente empregos remunerados de forma irregular até para os padrões dos anos de chumbo. Isso porque a LEP foi assinada em julho de 1984 pelo general João Figueiredo, no penúltimo ano de ditadura militar no país. Apesar de ser um direito, o trabalho no cárcere - visto como uma das principais ferramentas de ressocialização do preso - acaba sendo mais uma forma de exploração.
Em São Paulo, Estado com a maior população carcerária do país (240.061 presos), a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) mantêm contratos com 631 empresas privadas e 55 órgãos públicos que utilizam mão de obra dos internos, segundo dados oficiais. No site da pasta, o programa Alocação de Mão de Obra é descrito como uma oportunidade para que “a empresa possa desenvolver seu plano de responsabilidade social (...) sem vínculo empregatício com o trabalhador que está em cumprimento de sua pena e, portanto, sem os encargos sociais”. No Estado, 27% dos detentos que trabalham não recebem remuneração alguma, e 53% recebem menos do que o valor estipulado em lei. Além disso, uma portaria da SAP estipula que quanto mais postos de trabalho uma empresa ofereça dentro do presídio, menor é a taxa administrativa paga para a Secretaria, em um negócio lucrativo para todos – menos para o detento.
Questionada pela reportagem, a SAP de São Paulo afirmou que os presos prestam serviços nas áreas de “construção civil, têxtil, artesanato, fabricação de bens duráveis e não duráveis, alimentício e prestação de serviço”. Indagada, a pasta não comentou o descumprimento da LEP no Estado, tampouco forneceu a lista das empresas que utilizam mão de obra de detentos, e respondeu apenas que "discorda da metodologia de coleta de dados utilizada pelo Infopen na ocasião".
Parte dos contratos feitos entre detentos e empresas no Estado de São Paulo passam pela Fundação Professor Doutor Manoel Pedro Pimentel, a Funap, ligada à SAP. A entidade faz uma triagem das companhias, para evitar, por exemplo, que elas despeçam funcionários que estão em liberdade para contratar detentos, além de garantir o pagamento previsto em lei. “Para o setor privado é interessante investir neste tipo de mão de obra, uma vez que economizam todos os encargos trabalhistas”, afirma Lucia Casali, diretora da Funap. Mas nem tudo é lucro para a empresa que opta por trabalhar com presos. “Dificilmente eles conseguem que o interno trabalhe oito horas por dia, tendo em vista que é preciso que ele saia da cela, vá até a oficina, retorne no almoço horário de almoço... Tudo isso leva tempo”, afirma Casali.

Presos costuram uniforme escolar em Minas Gerais.
Em algumas ocasiões, a Fundação chegou a acionar a Justiça para garantir que empresas conveniadas fizessem o pagamento correto do salário dos presos. A diretora da Funap afirma que todos os contratos irregulares apontados no estudo são feitos por fora da Fundação. “O ideal seria que os presos ganhassem um salário mínimo completo. Mas se todos ganhassem ao menos três quartos do mínimo já seria ótimo”, diz. A expectativa dela é que no máximo até 2019 a situação da exploração irregular de detentos seja sanado no Estado.
A reportagem tentou contato com duas empresas que exploram o trabalho dos presos paulistas sem sucesso.
No Distrito Federal a porcentagem de presos que trabalham de graça é de 100%. Procurada para comentar o descumprimento da lei, a Secretaria de Segurança Pública e Paz Social do DF informou que " o levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, de 2016, está desatualizado no que se refere ao Distrito Federal". Segundo a nota enviada, atualmente cinco internos e 132 internas do sistema prisional que cumprem penas em regime fechado exercem serviços remunerados".
Procurado, o Ministério da Justiça informou que "recentemente lançou o Selo Nacional de Responsabilidade Social pelo Trabalho no Sistema Prisional", e que "as empresas, órgãos públicos e entidades de economia solidária terão até o dia 31 de janeiro para se inscreverem neste primeiro ciclo de concessão do Selo". Já o Ministério Público Federal afirmou que tem atuação "pontual" no sistema penitenciário estadual, e suas ações são voltadas para o sistema federal. O assessor do procurador-geral de Justiça de São Paulo Paulo José de Palma informou que "o Ministério Público Estadual irá apurar a possível irregularidade em contratos firmados com os detentos".

“Lógica predatória”

Instituto Ethos, que trabalha com responsabilidade social para empresas, afirmou em relatório que “ainda que existam experiências louváveis [com contratação de presos], a lógica que as preside é essencialmente predatória (...) pois objetivam oferecer pequenos favores aos presos em troca de benefícios maiores para a empresa”. Mais à frente o documento afirma que o barateamento da produção para as empresas ao não remunerar presos de forma justa é tão grande que a Organização Mundial do Comércio “possui rígidas recomendações quanto à prática de dumping por meio da utilização de mão de obra de presidiários para baratear os custos de produção, considerada concorrência desleal”.
Do dinheiro recebido pelos presos que trabalham, uma parte é rateada entre os que executam funções internas e não remuneradas no presídio, como limpeza e manutenção. Parte fica com o Estado e uma parcela maior (cerca de 80%) é destinada à assistência da família. Um pequeno percentual é depositado em banco e pode ser sacado pelo detento após o cumprimento da pena.
Para Henrique Apolinário, assessor da Conectas, entidade do terceiro setor que trabalha com Direitos Humanos, os órgãos que deveriam fiscalizar a situação trabalhista dos detentos não o fazem. “O preso não tem acesso à Justiça mais básica, muito menos quando envolve questões trabalhistas. É uma situação muito vulnerável”, afirma. Segundo Apolinário, a exploração da mão de obra do preso “é um negócio lucrativo para as empresas, tanto é que o valor mínimo estabelecido de três quartos do salário base já foi estipulado para incentivar o setor privado a utilizar essa forma de trabalho”. Ele destaca ainda que o abuso trabalhista sofrido pelo preso “anda de mãos dadas com a privatização do sistema carcerário”. Como exemplo, o assessor cita Minas Gerais, onde as parcerias público-privadas para construção e administração de penitenciárias mais avançaram no país. O Estado tem a maior porcentagem de sua população encarcerada trabalhando: são 18.889 detentos empregados, ou 30% do total. No entanto, 54% destes presos mineiros não recebem nada, segundo o relatório do Ministério da Justiça.
O assessor da Conectas destaca ainda que dentro do universo de 15% de presos que trabalham, muitos não têm acesso a uma jornada completa, “o que dificulta a remição de pena”. “Em muitos casos o que encontramos nos presídios são trabalhos eventuais, uma ou duas vezes por semana, insuficientes para que ele consiga abater de forma significativa o tempo da pena”, diz.
A baixa remuneração dos detentos chamou a atenção do então procurador-geral da República Rodrigo Janot, que chegou dizer que o valor era um pagamento “extorsivo” para o preso. Em 2015 a PGR entrou com um pedido de liminar no Supremo Tribunal Federal para que fosse feito um reajuste no valor pago aos presos, para que a remuneração base fosse de um salário mínimo. “O trabalho recompensado de forma injusta é substancialmente inútil para os efeitos de qualquer suposto ‘tratamento’ carcerário”, escreveu Janot. O pedido foi negado pelo ministro Luiz Fux, que no entanto destacou em seu parecer a “relevância do tema”. No Senado foi aprovado no final de outubro deste ano um projeto de lei que reforma a Lei de Execução Penal, e, entre outras medidas, atualiza a remuneração dos presos para um salário mínimo. A legislação ainda precisa ser aprovada no plenário da Casa.
FONTE:https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/14/politica/1513259606_735347.html

Garota 'brinca' de ser repórter e mostra problemas de bairro em SP

A mãe contou que o vídeo foi gravado uma única vez, e que planejamento se resumiu a: Mirella seria a repórter e o irmão cairia de bicicleta.
A adolescente Mirella Archangelo brinca de repórter e faz reportagem denunciando falhas nas vias públicas

Mirella Archangelo, de 11 anos, usou um microfone de isopor para abordar o assunto das graves falhas das vias públicas de Ribeirão Preto, cidade do interior de São Paulo. A mãe gravou tudo, e o vídeo - o primeiro de três, até o momento - viralizou e chamou a atenção de emissoras de TV.

O microfone foi um presente de aniversário usado quase que imediatamente. Segundo a mãe de Mirella, a tatuadora Amanda Salles, diante do microfone veio a ideia de gravar um vídeo de denúncia contra o descuido da via pública na região. "Quando chove fica tudo alagado, e quando está seco fica cheio de pedra e poeira", relatou a familiar em entrevista ao E+.
A mãe contou que o vídeo foi gravado uma única vez, e que planejamento se resumiu a: Mirella seria a repórter e o irmão cairia de bicicleta - para reforçar a ideia de buraco. "Ela falou tudo na hora, sem ensaio". Amanda compartilhou no grupo de WhatsApp da família e depois nas redes sociais e no WhatsApp do jornal local, que entrou em contato. A repercussão foi muito maior que o esperado, diz a mãe.
Para Mirella, que também deu entrevista por telefone a esta reportagem, o episódio mudou sua vida. Antes queria ser professora, agora sonha com jornalismo. "Gostei muito do que falei, e vou ajudar melhor o próximo se divulgar as informações".
A garota já é reconhecida na rua e até foi chamada por um vizinho para gravar um vídeo denunciando o vazamento de água, cujo conserto também foi postergado pela prefeitura. Na escola, todos a reconhecem e dizem que é pra ela continuar com as gravações.
Após o primeiro vídeo, a prefeitura de Ribeirão Preto deu um prazo de 45 dias para concluir a manutenção da via. Passado este período, nada foi feito e Mirella gravou um novo vídeo. "Será que vou ter que deixar meu jornalismo de lado para virar prefeita?".
Uma emissora de TV voltou ao local para novamente divulgar a falha. Mirella fez parte, como repórter. "Foi muito bom conhecer o que eles usam. Usei o ponto eletrônico e ouvi as conversas dos jornalistas, sabia quando estava em comercial e quando era para a gente entrar ao vivo". Em seu perfil no Facebook, gerenciado pela mãe, há fotos da garota com os irmãos e a equipe da imprensa já graduada.
São três os irmãos de Mirella. Peterson, de 8 anos, que adora fotografar e brinca com uma filmadora de papelão, Pablo, de 8 anos, e Marjorie, de 6 anos. Hoje a mãe filma os quatro, inclusive a encenação de Peterson como o cinegrafista.
A reportagem entrou em contato com a prefeitura de Ribeirão Preto, mas ainda não obteve resposta.
FONTE:https://www.gazetaonline.com.br/entretenimento/cultura/2017/12/garota--brinca--de-ser-reporter-e-mostra-problemas-de-bairro-em-sp-1014111963.html

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Turma da Mônica: Negra, crespa e filha de uma veterinária, Milena estará em breve nos gibis

Milena Sustenido é a mais nova integrante da Turma da Mônica. Negra e cacheada, a nova residente do Bairro do Limoeiro foi descrita por Maurício de Souza como uma menina “cheia de atitude, apaixonada por música e futebol”.  Ela foi apresentada oficialmente durante a primeira corrida Donas da Rua, projeto fruto da parceria da Maurício de Souza Produções e ONU Mulheres.
A música é forte na família de Milena, que não por acaso, tem o sobrenome Sustenido. A primeira sílaba dos nomes dos integrantes da sua família forma a escala musical: Doriva, Renato (pai), Milena, Fabinho (irmão), Solange (irmã), Laurinda e Silvia, a sua mãe, uma veterinária que cuida dos pets do bairro.
O Pai, Renato é um produtor musical, Dona Lalá (Laurinda) professora de piano e Seu Dodô (Doriva) constrói instrumentos musicais.
Milena foi criada para reforçar a representatividade das meninas negras nos quadrinhos, animações e eventos live action, para que elas se vejam nas histórias e saibam desde cedo que são Donas da Rua”, declarou Mônica Sousa, diretora executiva da MSP, em comunicado oficial.
Jeremias foi o primeiro personagem negro de Maurício de Souza, que ainda fez os personagens Pelezinho e Ronaldinho, inspirados nos jogadores Pelé e Ronaldo Gaúcho.


A profissão de Silvia,  mãe de Milena tira os personagens negros de Maurício de Souza da dobradinha esporte-música, área onde o destaque de pessoas negras é esperado. Porém,  essa é uma observação de adultos, para crianças um rostinho negro no gibi é 100% alegria.
FONTE:https://mundonegro.inf.br/turma-da-monica-negra-crespa-e-filha-de-uma-veterinaria-milena-estara-em-breve-nos-gibis/

O que é ser NORMAL? ft. VAI UMA MÃOZINHA AI?

‘Ser negra aqui é ser estrangeira no próprio país’, diz Djamila Ribeiro

DJAMILA RIBEIRO. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO
Feminista e mestre em filosofia política
questiona quem tem direito a voz na sociedade

O livro O Que É Lugar de Fala? foi lançado pela pequena editora Letramento, mas atraiu atenção de grandes selos. A autora, porém, pretende manter essa obra – e a coleção que organizou – onde está. Djamila Ribeiro explicou que só vai considerar ir a outras editoras em projetos futuros.
Feminista negra, mestre em filosofia política e ex-secretária-adjunta de Direitos Humanos de São Paulo – na gestão de Fernando Haddad –, a autora tem se destacado como uma das vozes mais atuantes, hoje em dia, em debates sobre questões de gênero e racismo. a entrevista à repórter Paula Reverbel, ela aborda o tema de seu livro: quem tem direito a voz em uma sociedade ainda racista e machista?
Pode falar um pouco sobre como é a sua experiência de ser mulher negra no Brasil?
Infelizmente o Brasil naturaliza muito a violência. Muitas vezes, quando a gente fala da nossa rotina, as pessoas acham que é exagero. Só vão se chocar quando acontece algo com a filha, por exemplo, do Bruno Gagliasso. Mas falta o entendimento de que, quando a gente fala de racismo, é sobretudo do racismo estrutural. Ligar a televisão e não enxergar pessoas negras… Por que na USP a maioria dos professores são brancos e as mulheres que limpam os banheiros são negras? Por que não tem pessoas negras, enfim, nos espaços de poder?

Pode dar um exemplo de racismo estrutural que sofre?
Se eu vou pegar um voo internacional, as pessoas olham com cara estranha, ou vêm falar em inglês comigo, porque acham que eu sou estrangeira. E eu tiro onda porque, se eu for também todo dia me estressar com isso, eu não vivo. Tenho uma filha pra criar, precisar estar bem. Se estou no exterior e encontro brasileiros, eles começam a perguntar: “Veio fazer o que aqui nos EUA, você veio sambar? Você veio fazer show?” Então, se eu encontro brasileiro sem noção fora do Brasil, eu geralmente falo “no portuguese”, pra evitar o estresse. Passei uma semana de outubro na Noruega e andava muito mais tranquilamente num país nórdico do que no meu próprio país.

As pessoas lá veem com mais naturalidade?
Muito mais. E olha que eu tive reuniões no Parlamento, com membros do partido do governo. Era vista como uma pessoa que foi pra uma reunião. Aqui no Brasil é sempre um olhar de estranhamento. No ano passado, quando eu era secretária de Direitos Humanos, já fui barrada em reuniões.

Você foi barrada?
Barrada em recepções. Uma vez eu falei: “Olha, eu sou a Djamila, tenho uma reunião com tal procurador”. E a recepcionista disse: “Mas agora o procurador tem uma reunião com a secretária-adjunta dos Direitos Humanos”. Falei: “Então, sou eu”. Coisas do tipo que acontecem no Brasil. Ser negra no Brasil é ser estrangeira no próprio país. Porque a gente nunca se sente pertencida e as pessoas sequer se questionam sobre isso, sabe? De tão naturalizado que está. As pessoas brancas precisam sair desse lugar do conforto e começar a olhar o Brasil real.

Como você explica o que é o ‘lugar de fala’?
É pensar, sobretudo, quem foi autorizado a falar numa sociedade racista, machista. É só a gente começar a olhar as próprias produções bibliográficas dos nossos cursos, é só a gente começar a olhar quem são, numa redação, jornalistas. A gente não parte dos mesmos lugares de direito à fala. As pessoas gostam de dizer que tem que dialogar, mas como dialogar se um está no topo e o outro está na base? O outro sequer é ouvido, né? Então a gente falar de lugares de fala é pensar as hierarquias que estão postas na sociedade que autoriza que determinados sujeitos falem, ao passo que outros ficam invisíveis.

Essa discussão causa incômodo em algumas pessoas?
Homens brancos são muito incomodados com esse debate. Alguns dizem “Ah, então agora a gente não pode mais falar”, como se nós tivéssemos algum poder de impedir que eles falem. O máximo que pode acontecer é eu bloquear esse sujeito na minha página de Facebook, mas ele vai continuar sendo o chefe de redação, ele vai continuar sendo o escritor publicado, ele vai continuar sendo o professor. A gente quer coexistir dentro desse espaço e ele quer continuar sendo voz única.

No debate sobre cotas nas universidades, muitos alunos de escola privada criticaram a reserva de metade das vagas para egressos de escola pública. Tem interesse próprio aí?
Sim, de uma pessoa pensar: “Está tirando a minha vaga.” A pessoa já assume que é dela quando a vaga é pra todos. Mas quem eram as pessoas que conseguiam acessar esse espaço? Aquele sujeito branco que não questiona que ele faz parte de um lugar do privilégio e acaba naturalizando o privilégio. Ele não acha que aquilo foi construído à base da opressão de outros grupos. Então, quando ele não entende isso, vai falar: “Como assim, tá tirando a minha vaga!” Se entendesse o lugar social que ele ocupa, ele não ia naturalizar como dele.

Recentemente, a Tais Araújo e o Bruno Gagliasso reclamaram de racismo, mas sofreram reações diferentes. Como vê isso?
É porque existe uma compaixão maior quando são as pessoas brancas falando. Quando vítimas da opressão reclamam, as pessoas tratam como mimimi ou como uma coisa chata. E a Taís Araújo só falou uma realidade. A gente vive num país em que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado. As mães negras têm medo quando seus filhos vão pra rua. Eu tenho dois irmãos homens, minha mãe dizia: “Não saia sem documento, não saia malvestido.” Porque ela sabe o peso que é. No caso do Bruno e da Giovanna Ewbank, um casal branco, todo mundo se compadece, né? Não é culpa deles, evidentemente. São pessoas que estão indo buscar informação, são pessoas que admitiram a ignorância em relação à questão racial, que só foram sentir quando eles tiveram uma filha negra. Acho incrível o que estão fazendo, contribuiu muito para o debate. Pessoas brancas têm que contribuir para o combate racial. Mas percebemos o quanto a sociedade é hostil em relação às pessoas negras.

A Tais se referia a um tipo de racismo menos evidente. Causa mais indignação?
Sim, porque quando a filha do Gagliasso foi xingada, você tem um fato concreto, não tem nem como dizer se foi racismo ou não. Já no caso da pessoa que atravessa a rua quando vê um menino negro (exemplo dado pela Tais), ela não quer se confrontar com aquela verdade desagradável. Então prefere não falar sobre aquilo ou atacar a Taís. Uma autora que eu uso muito no meu livro, a Grada Kilomba, diz que as pessoas reprimem pra não ter que lidar com verdades desagradáveis.

Tem-se apontado muitos casos de racismo ou machismo vindo de pessoas que não se davam conta de suas atitudes…
É importante a gente ter humildade de entender que todo mundo vai reproduzir a opressão, a gente é criada pra reproduzir. Eu tive que aprender sobre a questão trans, já falei muita besteira. Passa pela humildade da pessoa de reconhecer que não sabe. Para conhecer a realidade das pessoas travesti eu fui ler sobre, eu fui em palestra sobre. Pedi desculpas e fui aprendendo. O problema é que as pessoas não querem ter esforço. As pessoas brancas têm que ler sobre a questão racial, dar espaço na mídia pra que essas pessoas falem. Existem várias formas de você contribuir. Na questão do machismo é a mesma coisa, os homens podem ler o que as feministas vêm produzindo. Quem não se informa diz: “Ah, mas eu acho que é.” A gente tem que combater o racismo, o machismo e o achismo. O achar é uma irresponsabilidade, é antiético inclusive, é extremamente irresponsável socialmente. Você achar que o Brasil não é um país machista não retira o fato de que a cada cinco minutos uma mulher é agredida pelo companheiro.

Você é acadêmica. O que a academia não deu conta de fazer em relação a essas discussões?
É importante sair da bolha da academia porque ela é um espaço de privilégios no Brasil. Eu quero falar de modo que a minha mãe entenda o que eu tô falando, que minhas tias entendam o que eu tô falando. E isso não significa que elas não entendem porque elas não têm capacidade. Elas não tiveram oportunidade de dominar uma linguagem que eu tive oportunidade de dominar. A gente não pode esquecer o compromisso com a sociedade. As feministas negras têm um compromisso muito grande com a linguagem. A Angela Davis é doutora em Sorbonne, mas se você pegar um livro dela, a linguagem é extremamente acessível. A academia critica os acadêmicos que fazem esse esforço de serem acessíveis. Eu sou acadêmica, mas consigo transitar em vários lugares. Ao mesmo tempo que estou na academia eu falo num canal de televisão aberta, vou à periferia participar de formação, vou a palestra e fico conversando com CEOs de grandes empresas. É importante saber transitar em todos os espaços e não criar um nicho.

Acadêmicos veem com maus olhos o seu jeito acessível de falar de feminismo?
Muito. Muitas teóricas femininas também. Pelo fato de não ficar confinada numa biblioteca o dia inteiro. Eu poderia falar filosofês se eu quisesse. Falo filosofês em evento da filosofia, em que todo mundo domina aquela linguagem. Se eu vou falar num evento com pessoas de vários lugares, aquelas pessoas não têm obrigação nenhuma de dominar a linguagem filosófica. Se você tem um compromisso social você vai se preocupar com a questão da linguagem.

Às vezes há queixas quanto ao tom usado por quem reclama de racismo ou machismo. O que pensa disso?
Colocam os movimentos como sendo agressivos, violentos. Muitas vezes existe certo exagero, eu sou crítica a algumas estratégias da militância, mas não posso dizer como essas pessoas devem reivindicar. Mulheres brancas ganham 30% menos que homens brancos, mulheres negras ganham até 50% menos. Elas vão continuar sendo oprimidas e você tá bravinho porque ela falou pra você calar a boca. O que é violento? Alguém mandar você calar a boca ou você, por pertencer a um grupo, estar sujeito a uma série de violências? Como é que eu vou chegar pra uma travesti e falar “não grite”? O Brasil é o país onde mais se matam travestis e transexuais no mundo.

FONTE:http://cultura.estadao.com.br/blogs/direto-da-fonte/ser-negra-aqui-e-ser-estrangeira-no-proprio-pais-diz-djamila-ribeiro/

sábado, 16 de dezembro de 2017

ARGENTINOS PROTESTAM E GRITAM: ISTO AQUI NÃO É BRASIL

O Brasil do governo de Michel Temer virou referência internacional: uma má referência, no entanto; um dos gritos de guerra dos manifestantes argentinos contra a Reforma da Previdência imposta por Macri é "Isto aqui não é o Brasil!"; os argentinos saíram às ruas para protestar contra mudanças nas aposentadorias e pensões de funcionários já aposentados e aumento na idade mínima de aposentadoria.

247 - O Brasil do governo de Michel Temer virou referência internacional. Uma má referência, no entanto. Um dos gritos de guerra dos manifestantes argentinos contra a Reforma da Previdência imposta por Macri é "Isto aqui não é o Brasil!" Os argentinos saíram às ruas para protestar contra mudanças nas aposentadorias e pensões de funcionários já aposentados e aumento na idade mínima de aposentadoria propostos por um governo eleito. Aqui, Temer tenta impor reformas ainda mais graves sem ao menos ter sido chancelado pelas urnas.

A proposta de Macri revê o cálculo da aposentadoria, o que pode prejudicar 17 milhões de cidadãos argentinos. De acordo com a nova medida, para exemplificar, o próximo reajuste nos vencimentos, programado para março, cai de 12% para 5,7%.
A base do governo havia manobrado para acelerar a votação, que deveria ter sido realizada hoje. Entretanto, a sessão foi suspensa após episódios de violência na capital. Vários manifestantes ficaram feridos, incluindo dois deputados da oposição. Mais de mil membros das forças armadas reprimiram o ato que acontecia desde as 9h na Avenida de Mayo, centro de Buenos Aires. Dentro do Congresso, empurra-empurra e tensão adiaram a votação para a semana que vem.
A mudança consiste em levar em conta no cálculo um índice de inflação e não a base de arrecadação tributária e a média de aumentos salariais no país, como é feito hoje. A oposição classifica a investida como “um roubo aos aposentados”. O deputado federal e um dos líderes do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), Nicolás del Caño, acusa o governo de esconder a intenção da reforma durante sua campanha eleitoral.
FONTE:https://www.brasil247.com/pt/247/mundo/332505/Argentinos-protestam-e-gritam-isto-aqui-n%C3%A3o-%C3%A9-Brasil.htm

O 1% mais rico do Brasil fica com 27% da renda nacional. Os 10% mais ricos, com 55%. Nova pesquisa liderada pelo francês Thomas Piketty mostra níveis alarmantes de desigualdade no País.

Homem dorme na favela Nova Holanda, no complexo da Maré, no Rio de Janeiro, em 13 de dezembro. Desigualdade e pobreza marcam a imagem do Brasil
Um estudo coordenado pelos franceses Thomas Piketty, autor do best-seller O Capital no século XXI, e Lucas Chancel, da Paris School of Economics, mostrou que a desigualdade de renda no Brasil, a depender do critério utilizado, é a maior do mundo ou tem padrões equivalentes aos verificados em regiões como o Oriente Médio e a África Subsaariana. 
Divulgado nesta quinta-feira 14, o Relatório Mundial de Desigualdade revelou que, em 2016, o Brasil ficava em segundo lugar em um ranking de desigualdade se considerada a fatia da renda nacional capturada pelos 10% mais ricos da população. Por aqui, 55% da renda fica com essa parcela da população, número igual ao da Índia (55%) e equivalente ao da África Subsaariana (54%), atrás apenas do Oriente Médio (61%). O bloco Estados Unidos e Canadá (47%), Rússia (46%), China (41%) e Europa (37%) aparecem na sequência. 


Também nesta quinta, foi divulgada a base de dados do relatório. Nela, é possível ver que o 1% mais rico do Brasil fica com 27,8% da renda nacional segundo os critérios usados. É um resultado referente ao ano de 2015, o maior entre todos os países pesquisados com dados para períodos semelhantes. Atrás do Brasil aparecem Turquia (23,4%), Iraque (22%), Índia (21,7%), Colômbia (20,4%), Estados Unidos e Rússia (20,2%), África do Sul (19,2%) e Egito (19,1%)
Para os autores do estudo, o Brasil, ao lado do Oriente Médio e da África Subsaariana formam a "fronteira da desigualdade". São locais onde nunca houve um regime igualitário como os de Estados Unidos e Europa após a Segunda Guerra Mundial, e nos quais a desigualdade segue "relativamente estável em níveis extremamente altos". 
A estabilidade se concentra nessas regiões, diz o estudo, enquanto as desigualdades aumentaram profundamente no mundo desde a década de 1980, em particular nos Estados Unidos. "As desigualdades aumentaram em quase todas as regiões do mundo", afirma o relatório, que compara de maneira inédita a distribuição da riqueza a nível mundial e sua evolução em quase quatro décadas.
Este fenômeno, no entanto, aconteceu com ritmos diferentes, de acordo com as regiões, afirmam os coordenadores do estudo, que apontam um forte aumento das desigualdades nos Estados Unidos, mas também na China e na Rússia, países cujas economias registraram uma significativa liberalização durante os anos 1990.
De acordo com o relatório, a parte da riqueza nacional nas mãos de 10% dos contribuintes mais ricos passou de 21% a 46% na Rússia e de 27% a 41% na China, entre 1980 e 2016. Nos Estados Unidos e Canadá, este índice passou de 34% a 47%, enquanto na Europa foi registrado um aumento mais moderado (de 33% a 37%). 

Divergência extrema 
No Oriente Médio, as desigualdades estão "sem dúvida subestimadas", destaca o relatório, que menciona uma contradição entre as estatísticas oficiais dos países do Golfo e alguns aspectos de sua política econômica, como o crescente recurso a trabalhadores estrangeiros mal remunerados.
Em termos de evolução, a divergência é "extrema entre a Europa ocidental e os Estados Unidos, que tinham níveis de desigualdade comparáveis em 1980, mas se encontram atualmente em situações radicalmente diferentes", destaca o estudo, realizado com a colaboração de mais de 100 pesquisadores de 70 países.
Em 1980, a parte da riqueza nacional nas mãos de 50% dos contribuintes mais pobres era quase idêntica nas duas regiões: 24% na Europa ocidental e 21% nos Estados Unidos. Desde então, o índice permaneceu estável, a 22%, no lado europeu e caiu a 13% nos Estados Unidos.
Um fenômeno que se explica, de acordo com Thomas Piketty, pela "queda das rendas da menor faixa" nos Estados Unidos, mas também por uma "desigualdade considerável na área de educação e uma tributação cada vez menos progressiva" neste país. "Isto mostra que as políticas públicas têm um forte impacto nas desigualdades", completa.
Margens de manobra 
A principal vítima desta dinâmica, segundo o relatório, baseado em 175 milhões de dados fiscais e estatísticas resultantes do projeto wid.world (wealth and income database), é a "classe média mundial".
Entre 1980 e 2016, o 1% dos mais ricos obteve 27% do crescimento mundial. Os 50% mais receberam apenas 12% da riqueza, mas viram sua renda aumentar significativamente. O que não aconteceu com as pessoas entre as duas categorias, cujo "crescimento da renda foi frágil".


Estas desigualdades vão aumentar ou diminuir no futuro? Em seu estudo, os autores antecipam um novo crescimento até 2050, com base nas atuais tendências. A participação do patrimônio dos mais ricos aumentaria assim de 33% a 39%, enquanto a classe média mundial veria sua participação no patrimônio cair de 29% a 27%.
"Tal evolução não é, no entanto, inevitável", explicam os autores. De acordo com as projeções, as desigualdades aumentarão caso os países sigam a tendência atual nos Estados Unidos, mas podem registrar uma leve queda caso repitam a trajetória da União Europeia.
"Há margens de manobra. Tudo dependerá das decisões tomadas", conclui Thomas Piketty, que considera necessário um "debate público" sobre as questões.
FONTE:https://www.cartacapital.com.br/economia/o-1-mais-rico-do-brasil-fica-com-27-da-renda-nacional-os-10-mais-ricos-com-55-1

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