quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pessoas e índios, coisas diferentes - De Douglas Belchior

No Brasil, futebol, seleção e copa do mundo têm sido importantes como elementos e momentos de afirmação da nação brasileira, do patriotismo tupiniquim e principalmente da reafirmação do que somos enquanto povo.
É importante refletir sobre o que leva um país de maioria negra e de raízes indígenas como o Brasil preferir a representação da apresentadora gaúcha Fernanda Lima e do ator catarinense Rodrigo Hilbert, ao invés da dupla de atores negros Camila Pitanga e Lázaro Ramos, como rostos oficiais diante do planeta bola.

Me refiro a essa emblemática troca, apenas como um dos inúmeros exemplos que temos de como o racismo e a mentalidade eurocêntrica dita as regras no país da democracia racial.


O trabalho de Lorena Maria e Silva, pesquisadora e produtora da TV Senado ilustra a dolorosa realidade racista que vivemos.


Vale a pena ler cada palavra e assistir o último episódio da série “Brasil no Olhar dos Viajantes”.



Por Lorena Maria e Silva

Há dois anos trabalho com o diretor João Carlos Fontoura na pesquisa da série Brasil no Olhar dos Viajantes. Trata-se de uma produção da TV Senado sobre os relatos que os estrangeiros fizeram do Brasil desde o descobrimento até as grandes expedições do século XIX. Pois bem, percebi que essa série é muito mais atual do que podíamos imaginar.  Desde que comecei a pesquisar os textos dos viajantes fui descobrindo termos, expressões e ideias que estão aí, muito presentes nas nossas recentes discussões.
 A repercussão das manifestações em Brasília, em que os índios foram hostilizados e novas cenas de violência se repetiram na rua, só corroboraram essa percepção.  A manchete da Globo News trazia “Uma pessoa foi presa e um índio foi apreendido”.  Pessoas e índios … Parece bobo, mas a nossa relação com os índios passa por uma discriminação explícita, que o considera como algo mais próximo de um selvagem do que de um cidadão que deveria ter seus direitos respeitados. A mesma coisa com os negros. Os comentários sobre a aprovação das cotas para negros em cargos públicos são inacreditáveis. Não falo daqueles que argumentam sobre outras possibilidades para o acesso do negro às universidades e ao mercado de trabalho. Falo daqueles que acham um privilégio esse tipo de política pública, como se a nossa história tivesse sido muito justa com os negros.

Bem, depois desse meu desabafo, compartilho os trechos que achei nos livros. Se essa série pode contribuir em alguma coisa para as discussões atuais, acredito que seja revelando o quanto a nossa opinião sobre determinados assuntos é uma visão importada.  Ou, pelo menos, foi alimentada anos e anos por pessoas que tinham uma concepção eurocêntrica, discriminatória e que nos viam desde o princípio como “inferiores, incivilizados, bárbaros…”, como disse a professora Mariza Veloso em seu depoimento.

 Séculos XVII e XVIII

 01)   “Os pobres selvagens, asseguro-vos, manifestaram uma alegria indescritível com a nossa presença. É um povo já completamente seduzido e conquistado, um povo aberto à verdade e que nos ama e admira infinitamente, a ponto de chamar-nos de profetas de Deus e Tupã.”

 Relato do francês Claude D’abbeville, intitulado Chegada dos padres capuchinhos na Índia Nova, denominada Maranhão – 1612

02)   O Brasil, a bem da verdade, não passa de um refúgio de ladrões e assassinos – não se nota, no país, qualquer subordinação, qualquer obediência.”


03)   “Os costumes nesse país são corrompidos e os homens não ruborizam por nadaAs mulheres não são menos debochadas e, publicamente, vivem de maneira completamente desregrada. Os religiosos e padres seculares, além de ignorantes as extremo, mantêm relações públicas com as mulheres ….”

Relatos do francês Le Gentil la Barbinais em sua passagem pela Baía de Todos os Santos em 1717.


04)   “Desconhecem, igualmente, qualquer tipo de matrimônio, sendo a lascívia comum entre eles, sobretudo por parte das mulheres, que são além da medida apreciadoras da luxúria. Pode-se ter quantas mulheres se quiser e manter com elas relações carnais independentemente do parentesco, em público e sem qualquer pudor, como verdadeiros animais selvagens”.


05)   Os portugueses, conhecidos pela sua avareza, têm o costume, quando um navio entra no porto, de triplicar o preço dos artigos nos seus mercados, da laranja à pipa de vinho”.


Relatos do francês François Pyrard de Laval em sua passagem pela Baía de Todos os Santos em 1717.


06)    “A gente rica (…) nunca anda a pé. Empenhados sempre em encontrar meios para se distinguirem dos homens tanto do resto da América como da Europa, os habitantes daqui têm vergonha de utilizar as pernas que a natureza lhes deu para caminharem. Em geral, deixam-se molemente carregar numa espécie de cama feita de tecido de algodão, suspensa, de ambos os lados, por um grande bastão, que dois negros levam sobre a cabeça ou sobre os ombros”.


07)   “Pelas ruas só se veem as figuras hediondas dos negros e das negras, escravos que a languidez e avareza, muito mais que a necessidade, transplantaram da costa da África para servir à magnificência dos ricos.” 

Relatos do francês François Frezier em sua passagem pela Baía de Todos os Santos em 1714.


 

Século XIX


 

08)   “A tendência geral produzida pela escravidão, examinada nos diversos pontos de vista, é despertar todas as más qualidades em quem administra e em quem é administrado por esse sistema. Por esse sistema o governo permite a desmoralização de seu povoe que as propriedades dos vassalos sejam dirigidas de maneira desvantajosa.”

Relato do viajante Henry Koster no livro Viagens ao Nordeste do Brasil (1817).


09)   “… faltam os elementos para grandes progressos; uma população rarefeita, disseminada por imensa superfície, abandonada a si própria, enervada por um clima tórrido, sem emulação, quase sem necessidades, não modifica coisa alguma, não quer e não sabe mudar nada”.


10)   “Ali, não é o calor excessivo que leva os homens à preguiça; eles são indolentes porque necessitam de pouca coisa para viver, não conhecem o luxo e tanto a fecundidade do solo como a doçura do clima não os obriga a despender grandes esforços”.

Relatos do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire em sua viagem por Minas Gerais e Goiás no ano de 1819.


11)   “É de se obervar que [...] as leis sobre a escravidão, de origem remotíssima aliás, transmitiram de geração em geração uma série de privilégios e castigos que se encontram hoje quase sem alteração no Brasil, parte mais moderna do Novo Mundo”


12)   “… depois de amarradas as mãos sentou-se sobre os calcanhares, passando as pernas entre os braços de modo a permitir ao feitor que enfiasse uma vara entre os joelhos [...] em seguida, facilmente derrubada com pontapé, a vítima conserva posição de imobilidade que permite ao feitor saciar sua cólera.”


Relato do francês Jean-Baptiste Debret em Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicado entre os anos de 1834 e 1839.


13)   “O maior serviço que o rei poderia prestar aos súditos, no Brasil, seria a distribuição de médicos e cirurgiões competentes pelos diferentes pontos do país, e o estabelecimento de boas escolas, a fim de, gradualmente, dissipar a rude ignorância e cega supertição…”


Relato do alemão Maximilian de Wied-Neuwied publicado em 1820 no livro Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817

 

14)   “O barulho e a alegria desenfreada de muitos negros reunidos imprimem a essa festa popular um cunho especial, esquisito, de que somente podem fazer ideia aqueles que tiveram ocasião de observar diversas raças humanas em promiscuidade”.


Relatos dos naturalistas alemães Baptiste von Spix e Carl Friedrich Phillipp von Martius publicados na obra Viagem pelo Brasil, entre os anos de 1817 e 1820


 15)   “Nunca é muito agradável submeter-se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis as suas pessoas, é quase intolerável! Contudo, a perspectiva de florestas selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças, lagos, roedores e oligatores fará um naturalista lamber o pó até da sola dos pés de um brasileiro.”


Relatos do inglês Charles Darwin no livro pesquisas sobre a geologia e a história natural nos vários países visitados pelo H.M.S. Beagle, 1832-1836


16) “Ela apresenta o singular fenômeno duma raça superior recebendo o cunho duma raça inferior, duma classe civilizada adotando os hábitos e rebaixando-se ao nível dos selvagens. Nas povoações do Solimões, as pessoas que são consideradas como da aristocracia local, a aristocracia branca, exploram a ignorância do índio, ludibriam-no e embrutecem-no, mas tomam não obstante os seus hábitos e, como ele, sentam-se no chão e comem com as mãos”.


17)  “Esse cuidado em excluir os escravos dos trabalhos públicos revela uma tendência para a emancipação. Inspira-se na ideia de limitar pouco a pouco o trabalho servil às ocupações agrícolas, afastando os escravos das grandes cidades e suas vizinhanças”.


Relatos do suíço Louis Agassiz no livro Viagem ao Brasil publicado em 1867


Fonte:http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2014/06/04/pessoas-e-indios-coisas-diferentes/


#Download Baixe o álbum Yasiin Gaye: The Return (side two), do Amerigo Gazaway


Quem aí se lembra do álbum “Yasiin Gaye: The Departure (Side One)”, lançado no começo desse ano pelo Amerigo Gazaway, que juntava os clássicos do rapper Mos Def (AKA Yasiin Bey) aos do lendário mestre do soul Marvin Gaye?
… e que durou pouco por que foi derrubado pela RIAA (Recording Industry Association of America) sob a acusação de violação dos direitos autorais dos artistas homenageados. [Fuén!]
Pois bem, a segunda parte desse projeto já havia sido anunciada há algumas semanas mas só hoje (04.06) foi oficialmente lançado e disponibilizado para download gratuito. 
Então ouça e baixe logo o “Yasiin Gaye: The Return (side two)”, antes que tirem do ar novamente! [clique aqui para baixar!]

Fonte:http://perraps.com/post/87832357574/download-yasiin-gaye-the-return-side-two-amerigo-gazaway

PROCEDER Pcd - Ensaio Aberto


VibeZen - Reu de Seu Amor (Part. Dizzy Ragga e PD Goncalves) (Prod. Rick Beatz)




RAP CAPIXABA. Máfia MC´s - Lady




terça-feira, 3 de junho de 2014

RAEL - Ainda Bem Que Eu Segui As Batidas Do Meu Coração (2013), um álbum para... GUIAR!...


De cantor em cantor a gente vai descobrindo novos mundos. De rap em rap então, meu Deus, são novos horizontes a cada batida, a cada letra. Meu movimento com o rap e hip hop é recente. Sempre tive contato com o movimento norte americano, via MTV, década de 90, tem coisa que curto, mas tem coisa que quero distancia. De uns tempos pra cá, com meu afastamento da musica norte americana, suas (fabricadas) divas de todos os anos e seus pop stars rebeldes sem causa, busquei um caminho sonoro em outros países. Assim descobri o zouk, quizomba e afins, a musica pop indiana e outro lado da musica brasileira...
Rael, negão, paulistano, boa voz, é uma das melhores descobertas que meus ouvidos acharam de gostar. O cantor é dono de uma voz suave, mas ao mesmo tempo forte, proveniente da pegada do seu som, regaae e rap, rima e swing, Afro beat, Gilberto Gil, Jamaica e Avenida Paulista, tudo misturado de uma forma muito prazerosa de ouvir. A produção é gringa - Beatnick e K-Salaam, mas o resultado (ops, O RESULTADO) é maravilhosamente brasileiro.
Este “Ainda Bem Que Eu Segui as Batidas do Meu Coração” (do selo Laboratório Fantasma) é seu segundo cd. Nele encontramos um Rael superior ao seu trabalho de 2010 – MP3 Musica Popular do Terceiro Mundo. A sonoridade é melhor, as letras mais coesas, tudo reflete amadurecimento em cada faixa. Primeira vez que ouvi Rael, fiquei encantado com a fluidez e o cuidado da produção do álbum, repetia trechos de canções, sorria, ouvia mais atentamente... Cd realmente bom!
O álbum abre definitivamente pulsando, batidas de um coração, forte, em ‘Ainda Bem” Rael mostra o que move sua vida, o que motiva seu trabalho, o fazer de sua arte. Soa até como “faixa de agradecimento”, mas o rapper inova em colocar este tipo de canção no começo. Nela ele agradece suas referencias e abre o cd falando que para chegar até aqui ele seguiu suas próprias vontades. Na verdade CAMINHO seria a palavra mote do 2° cd do cantor. Seguindo o desenvolvimento do álbum, “Caminho”, dá conta de outras referencias do cantor. Pedras, conflitos, pessoas nobre ou não, paz, guerra, discurso, buracos, tudo que é feito o caminho de um cidadão de bem, trabalhador, mais a batida black batendo no centro na condução da letra. Em “Semana” o clima ameniza totalmente, canção romântica, sensações que o amor nos faz ter, misto entre a pressa da paixão e a certeza de cada momento aproveitado pelo amor. Com “Tudo Vai Passar” o reggae começa a pegar, feat perfeito com Msario, outra sobre cruzamento entre escolhas & oficio artístico.

“Anda” muda um pouco o alvo do cd. Rael fala diretamente pra favela, seus habitantes, o dia a dia, escadarias, vielas, o esquivo do mal e os Orixás. “Só Não Posso” versão remix fala sobre tentações, do mal que faz questão de bater a nossa porta se nos afastarmos. Rap de raiz brasileira, balanço bom. “Quizumba” e “Causa e Efeito” são exemplos de canções sobre fé (em si, nos outros e nos deuses), persistência, trabalho e da gente que cruza nosso caminho (olha ele de novo) para nos destruir.

“Diáspora”, uma das minhas preferidas, outro reggae, faz jus ao nome. Nosso povo está espalhado pelo mundo, pelo Brasil. Referências, crenças, religiões, visões de mundo tudo diferente unidos em um só povo, uma só cor e uma só luta. O som é bem relaxante, mas a letra é forte demais. “Coração” fala sobre as diferenças do amor, dele, dela... A motivação é clichê, mas o resultado me surpreendeu. “Ela me Faz”, outra querida por mim, primeira musica que me fez ligar em Rael, depoimento sincero de um cara largadão que curte mina certinha e quer se consertar também, mas com ela do lado, é claro...
Em “Diferenças” e “Pedindo Pra Deus”, a velha luta de interesses entre patrões e empregados, população e governantes. Emicida e Péricles dão uma mãozinha no samba regravado “Oya”, pedidos ao céu do povo trabalhador. Nesta faixa Rael vem apoiado por dois grandes intérpretes, um do samba das “novas gerações” e outro do rap brasileiro da gema. “Leão de Judah” finaliza o cd dizendo que apesar das dificuldades nós não podemos nos entregar.
Curioso que o caminho que Rael segue quando ouve o sentido das batidas de seu nobre coração é o da fé. É acreditando em dias melhores que o cantor mostra seu trabalho. A fé move montanhas, não importa o tamanho delas. O cd em nenhuma faixa lembra aas batidas de rap ou hip hop norte americano. Sempre Brasil e sempre rap com leves (ou não) toques de reggae. E isso é bom. Não sou purista. Tem cantor brasileiro que prefere caminho diferente e acerta, mas não adianta escolher um viés mais nosso se o resultado fica aquém. Com Rael o efeito é superior.

Este 2° álbum está na minha play list com certeza! Ouço a caminho do trabalho, na academia, escapando das pregações fanáticas dentro do ônibus. Aliás, este álbum entrega uma positividade muito melhor que muito pregador por ai, sem cobrar nada e seus ouvidos ao final vão agradecer pelas boas batidas.

Fonte:http://peliculanegra.blogspot.com.br/2014/06/rael-ainda-bem-que-eu-segui-as-batidas.html

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Pelo Racismo Institucional se mantem uma cultura social de intolerância


..."O que aconteceu ao Professor Kabengele Munanga pode ser lido como a continuação do comportamento típico dos dominantes quando enfrentam um caso de rebeldia contra injustiça: o rebelde tem que ser punido, na medida do possível, duma maneira exemplar (leia severamente) para que outros rebeldes potenciais não sejam encorajados em imitá-lo."...

O Professor Kabengele Munanga FOI EXCLUÍDO de uma seleção para professor visitante da UFRB( Universidade Federal do Recôncavo da Bahia). 
Por que tanto medo do Professor Kabengele Munanga? Por que tanta raiva contra alguém que contribuiu tanto na partilha dos seus saberes? Para as pessoas pouco informadas, o Professor Kabengele Munanga se destacou na sua carreira acadêmica na USP.

Em fins de 2013 se aposentou e aceitou o convite para lecionar como Prof. Visitante Sênior na jovem universidade federal do Recôncavo da Bahia(UFRB) Baiano -UFRB. Para isso, se candidatou para uma bolsa da CAPES, Edital 28 de 2013, na Categoria de PVNS Apesar de um parecer favorável e elogioso recomendando a outorga da Bolsa pleiteada, a sua candidatura foi rejeitada, levando a um protesto de vários acadêmicos, incluindo professores da UFRB. Numa carta aberta, agradecendo este ato de solidariedade, o Professor Kabengele Munanga explica historiando o processo em que se deu o que lhe aconteceu (veja anexo em baixo)



Aqui, gostaria de levantar uma pergunta: alguém teria medo do Professor Kabengele Munanga e de onde viria? A necessidade de refletir sobre isso é urgente, não só para os Afro-Brasileiros, mas também para todos os Brasileiros que entendem e agem como membros duma só humanidade, pois o contexto global em que vivemos hoje, exige, com urgência, essa afirmação.



No seu livro Pele Negra, mascaras brancas, Frantz Fanon discute esta questão do medo (pp. 125-6, Edufba, Salvador 2008), focando sobre aspetos bem conhecidos pelos sobreviventes dos legados acumulados da escravidão atlântica e da colonização. Infelizmente, o próprio Fanon não entra na discussão sobre como ele superou o medo. 



O medo dos adversários do Prof Kabengele Munanga é o produto, indireto, da serenidade e da franqueza com que ele tem abordado assuntos incomodantes da sociedade Brasileira, em volta das raízes do racismo, das sugestões sobre como solucionar as injustiças cumulativas herdadas dessas violências contra as partes discriminadas da humanidade.



Esse medo, quer da vitima, quer de quem tem medo da resistência das vitimas, nunca é de bom conselho. O medo dos gerentes dum sistema prisional tem uma explicação, mas, como é sobretudo visceral, a explicação a partir da razão não se aplica. Porque, como sempre aconteceu em outros casos históricos, os administradores do sistema não são preparados para enfrentar quem deveria se submeter à suas ordens, mas que, em vez, se levanta e argumenta a partir da sua consciência e com eloqüência e sabedoria uma saída honrosa para todos. Para os gerentes dum sistema injusto, as vitimas tem que se calar. Ir na contra mão dessa ordem informal é geralmente caracterizado de “impertinência” e, por isso, tem que ser punido.



Os administradores/gerentes dum legado histórico profundamente injusto tem dificuldades em parabenizar o Professor Kabengele Munanga decidir, no fim da sua careira, na pratica, dar uma lição de como corrigir as conseqüências, no nível do ensino superior, duma injustiça sistêmica contra as descendentes e os descendentes da escravidão. 



Não é difícil imaginar o que se passa na mente dos adversários do Professor Kabengele Munanga. Na peça de teatro Et les chiens se taisaient, Aimé Césaire ilustrou como o rebelde escravo enfrentou o dono, no próprio quarto dele. O que aconteceu ao Professor Kabengele Munanga pode ser lido como a continuação do comportamento típico dos dominantes quando enfrentam um caso de rebeldia contra injustiça: o rebelde tem que ser punido, na medida do possível, duma maneira exemplar (leia severamente) para que outros rebeldes potenciais não sejam encorajados em imitá-lo. Historicamente, os exemplos individuais e coletivos abundam: Kimpa Vita, Zumbi, Geronimo, Abdias Nascimento, Toussaint-l’Ouverture, Cuba, Haiti, Patrice Lumumba, Amilcar Cabral, Salvador Allende, Cheikh Anta Diop, Nelson Mandela, Samora Machel, Thomas Sankara, Steve Biko, Chris Hani, Aristide, para não mencionar mais.



O Professor Kabengele Munanga, de origem Congolesa, nação de Kimpa Vita, Patrice Lumumba e outras e outros, na mente dos seus adversários, por definição, não tem direito à palavra, muito menos quando a sua fala/escrita acaba dando uma lição contundente de como superar legados históricos seculares, no Nordeste Brasileiro, para que qualquer Brasileir@ possa pensar, sonhar, e conseguir ser uma estrela, um craque intelectual.



Desde já, agradecemos a coragem do Professor Kabengele Munanga por ter continuado trilhando os caminhos das benzedeiras e dos benzedeiros sobre os quais o grande autor Ghaneense, Ayi Kwei Armah escreveu com tanta eloquencia no seu livro de ficção The Healers. 


Fonte: http://digiartesgraficas.blogspot.com.br/2014/05/pelo-racismo-institucional-se-mantem.html

sexta-feira, 30 de maio de 2014

DEPOIMENTO DE UM VICIADO - Realidade Cruel




O AMOR VENCEU A GUERRA - Gog


CASTELO DE MADEIRA - A Família


Letra:
Milhões de brasileiros não tem teto não tem chão
Eu sou apenas mais um na multidão
Não vai pra grupo com minha calça, minha peita, minha lupa
Se canto rap aí, não se iluda.

Alá! to vendo a cena vai chover e o rio vai transbordar
E meu castelo de madeira vai alagar.
Isento de imposto eu mesmo abraço com meus prejuízos
Natural sofrer se os cordões são indecisos.

Mil avisos, periferia desestruturada
Mil muleque louco, no crime mostra a cara.
Centenas de vezes vi a cena se multiplicar
Quando cheguei ate aqui não tinha ninguém agora tem uma pá.

Muleque doido eu enfrentei o mundão de frente
Ausente em várias "fita" bandido filho de crente
No pente, desilusão, dinheiro, mulher
Mais pra frente se deus quiser mais resistente à fé

Rumo ao centro calos nas mãos multidões
Toda essa rebeldia reforça os refrões
Talvez você não saiba do herói que vive a guerra
Com uma marmita fria sem mistura eu sou favela

Vivi pensando a vida inteira em fazer um regaço
Mas agora que conquistei meu sonho, aquele abraço.
Mas não importa se chão de terra tem poeira
Realizei meu sonho, meu castelo de madeira.

Refrão
Sou príncipe do gueto só quem é desce, sobe a ladeira
Sou príncipe do gueto e meu castelo é de madeira.
Sou príncipe do gueto só quem é desce, sobe a ladeira
Sou príncipe do gueto e meu castelo é de madeira.

Hoje já choveu já ventou to de cara
Em saber que meu castelo suporta tudo menos fogo e bala.
Suporta dor, minhas crenças, minhas loucuras
Suporta ate minhas "cabreiragem" com a viela escura.

E o sobe e desce de uns "nóia" na fissura
Chave de cadeia se trombar com a viatura
Vida dura, brotou o espinho não a rosa
Quebrada querida vida bandida verso e prosa.


Meu orgulho, um rádio velho toca fitas
Rap nacional tocando é o que liga.
Às sete da noite a luz elétrica cai
Se a comunitária sai do ar... aí vai.

Coloco aquela fita de "drão bambambam".
Um cérebro sobre rodas finado "coban".
As crianças me vêem como um adulto equilibrado
Não sabem das minhas "fitas" nem dos meus pecados.

E os aplausos deixem pra depois
Quebrada querida mãe, é só nos dois
Vou lutar pra ser vencedor nessa porra
"desbaratinar" vidinha podre sodoma e gomorra

Deus criou o mundo, e o homem criou o dinheiro
Crack e cocaína, bebida e puteiro
Mas não importa se chão de terra tem poeira
Aqui! é meu castelo de madeira.


Refrão
Sou príncipe do gueto só quem é desce, sobe a ladeira
Sou príncipe do gueto e meu castelo é de madeira.
Sou príncipe do gueto só quem é desce, sobe a ladeira
Sou príncipe do gueto e meu castelo é de madeira.

Do lado de cá, do lado de lá
"treta" todo dia sem parar
Do lado de lá, do lado de cá
É sempre a mesma coisa "mano", o que quê eu vou falar

Você sabe o que o sistema faz, ignora!
E trás problema psicológico, tensão é "foda".
Descaso, humilhação transtorno permanente
Eu vi até uma família de crente espancar um parente.

Que amanheceu no outro dia em coma
Alcoolizado, drogado, traumatizado foi pra lona
Dez horas depois, perícia, policia, ambulância
E o parente que bateu chorou, igual criança

Esse é o sintoma da doença que me afeta
Ganhei de cortesia mau humor e as frestas
Não a festa, porque sorrir é difícil entenda
Sou verdadeiro e não lenda

Hoje já choveu oh, "mô" neurose
Nem costumo beber, até tomei uma dose.
Talvez pra clarear ou esconder os problemas
Mil "fitinha" acontecendo esse é meu dilema.

Coisa de louco, abrir a janela e ver no esgoto
Cachorro morto, sentir o mau cheiro e o desconforto
E junto com a lama, o drama, a sujeira
"brasilit" no calor é um inferno, mô canseira

Sonhar, sonhar, querer não é poder
Tem que ser "mano", fazer jus ao proceder.
Pros "cu" que tem dinheiro e luxo é constrangedor
Me ver "empreguinado" aqui com ódio e rancor.

Sonhei com tudo isso a vida inteira
Realizei meu sonho, meu castelo de madeira.
E é treta todo dia, todo dia, o dia inteiro
Só falta construir um banheiro

Refrao
Sou príncipe do gueto só quem é desce, sobe a ladeira
Sou príncipe do gueto e meu castelo é de madeira.
Sou príncipe do gueto só quem é desce, sobe a ladeira
Sou príncipe do gueto e meu castelo é de madeira.



Inquérito - Dia dos Pais (Versão 2012) C/ Letra - [ao vivo com banda]


Letra:
Quadra 8 tumúlo 9, 
Cemitério dos Amarais 
segundo domingo de agosto , DIA DOS PAIS.

Meti uma peita preta, vesti uma lupa escura...Juntei uns Troco pra floricultura.
Queria te dar outro presente Oh Pai uma beca, uma camisa do timão um cd sei lá , do Zeca. fazer o que né? O senhor que escolheu, preferiu o crime do que a Familia e deu no que deu. Pôs no peito dos gambezinho medalha de bronze...Passou a fazer aniversário 2/11.
Meteu os ferro roubou que roubou até umas hora , hein? E onde vc tá morando agora?
A 7 palmos longe da mãe de mim e da Roberta, quando alguém pergunta do pai na escola ela desconversa. Se alguém ganhou nessa história foi só seu advogado, nós continua morando num quartinho alugado. 
A mãe não teve estômago pra vim te visitar...Nunca mais foi a mesma depois que vc mudou pra cá. Tem pesadelo, vê vulto direto só consegue dormir tomando remédio. 
Vive com a frase do PM no ouvido: "melhor uma viúva do que mais um bandido"

Eu trouxe seu presente pai é um buquê de flores, e agora o que que eu faço? eu só queria era poder te dar um abraço. 
Eu trouxe seu presente pai é um buquê de flores, e agora o que que eu faço? ...

Seus parceiro de ação nunca te abandonaram, até no cemitério te acompanharam....
Tá lembrado do neguinho "pilotão de fuga"? Tá aí do teu lado em outra sepultura .
E aquele mano que era catador Linha de frente? Tá enterrado numa cova logo ali na frente...
Quem não entrou pra quadrilha dos finado...Tá tirando 10 no fechado do São Bernardo.
Vc foi baleado, lembra? Fiquei com você a noite inteira...Nenhum parceiro veio dá uma de enfermeira. 
Só que quando eu mais precisei cadê? vc não tava..Com 13 anos eu virei o homem da casa . A mãe sofrendo doente, vivia em hospital, larguei a escola pra vender sorvete no Taquaral.
É ... cada lembrança é uma lágrima que cai! Mó saudade do meu pai.

Eu trouxe seu presente pai é um buquê de flores, e agora o que que eu faço? eu só queria era poder te dar um abraço. 
Eu trouxe seu presente pai é um buquê de flores, e agora o que que eu faço? ...

A mãe tá indo no culto todo domingo, se não fosse isso já tinha enlouquecido.
A Roberta tá moça cresceu que é uma beleza...ja tá até cantando no coral da igreja. 
Hoje quando eu te vejo nas fotos em cima do rack...Vivo , positivo , só que nos negativo da kodak...Eu lembro do tempo que vc vivia com nós , vc sorria mas aí, a alegria...a alegria apagou mais rápido que um flash de fotografia....E o mesmo crime que te levou por dinheiro Ilusão veio te devolve num caixão com flor e algodão...
Olha desculpa se eu falei demais , se eu pesei , fui além eu precisava desabafa com alguém.
Já deu minha hora pai deixa eu ir, vc nunca escutou ninguém não é agora que vai me ouvir né . Quem sabe um dia nós se tromba nem que seja sonhando pra eu te dar o abraço que ficou faltando!

Eu trouxe seu presente pai é um buquê de flores, e agora o que que eu faço? eu só queria era poder te dar um abraço. 
Eu trouxe seu presente pai é um buquê de flores, e agora o que que eu faço?!





REFÉM DA AMNÉSIA - Realidade Cruel




WhatsApp! - Delano Valentim

dentro da sala de aula. na sala de espera. na fila do banco. do supermercado. diante das palavras dos sacerdotes, dos professores, psicólogos, e sábios. se equilibrando no trem. na fila do hospital. enquanto atende. enquanto é atendido. bebe, fuma, ou assiste a uma palestra. na fila do supermercado. no enterro. na creche. na unidade de tratamento intensivo. no crematório. dentro do carro. no semáforo. no engarrafamento. antes do coito. depois do coito. no jantar entre amigos. na reunião de família. no meio da oração. da declaração romântica. da divagação. da leitura. da meditação. no banheiro. durante a fantasia. enquanto dorme. dentro do cinema. ao acordar. enquanto faz carinho. enquanto recebe carinho. ouve  música. enquanto vive. andando na rua. entre os carros. em plena na avenida. durante os ensaios. na concentração. no meio da entrevista. enquanto assiste ao filme. enquanto espera a morte. no silêncio. WhatsApp!

Fonte:http://delanovalentim.blogspot.com.br/2014/05/whatsapp.html